PRESENTE

A pessoa mais incompetente que conheço para comprar presentes, eu vejo quando olho no espelho. Tenho uma impressionante capacidade de sempre fazer as escolhas erradas. É praticamente garantido que vou decepcionar a quem pretendo presentear.

É uma inabilidade testada e comprovada ao longo de toda uma vida: jamais poderei ser acusado de haver surpreendido nem encantado alguém com um presente que eu tenha comprado!

Não sei se é algo genético ou aprendido com meu pai, que também era um mestre nesta nobre arte de mal presentear. Só que ele se destacava pelo desempenho inferior como presenteador e pior ainda como presenteado.

A cena dele recebendo um presente dos filhos era sempre a mesma e até hoje habita a memória dos familiares: dava um leve sorriso de agradecimento, pegava o embrulho com cuidado e lentamente ia desfazendo o pacote, procurando não danificar o papel, cortando as fitas durex com uma faquinha amolada, desamarrando meticulosamente os nós dos cordões e preservando selos e adornos da embalagem. Em pouco tempo percebemos que toda aquela elaboração tinha um só objetivo: caso não gostasse, o que era quase certo, repassaria a peça para outra pessoa, embrulhada no mesmo papel, respeitando as dobras e todo o arranjo do embrulho original. Um verdadeiro origami! Quer dizer, dar um presente a ele ou jogar o pacote fora proporcionava quase a mesma sensação…

O famoso economista americano Milton Friedman, ganhador de um prêmio Nobel, formulou certa vez em uma entrevista, um raciocínio que agora me veio à lembrança. Sem pretender reproduzir as exatas palavras, ele dizia o seguinte: quando gastamos o nosso dinheiro em proveito próprio buscamos preço e qualidade, quando gastamos o dinheiro dos outros em proveito de outros não importa preço nem qualidade, quando gastamos o dinheiro dos outros em nosso proveito buscamos mais qualidade que preço, e finalmente, quando gastamos o nosso dinheiro em proveito dos outros olhamos mais o preço que a qualidade.

Talvez esta última afirmação seja verdadeira em uma grande parte dos casos de compra de presente, mas nem de longe justifica a incompetência a que me referi. Estou certo de que, mesmo com uma verba alta, querendo verdadeiramente agradar e demonstrar amor, vou zanzar desesperado em um shopping, lugar demoníaco, e no fim, exausto e derrotado, sem considerar ideal nenhuma das opções vistas, farei com certeza a escolha errada. Minutos depois da compra, a dúvida já terá sido substituída pelo arrependimento e, para o destinatário, acabará por ser o desapontamento embrulhado para presente.

Felizmente agora já existem situações nas quais esta minha deficiência pode passar despercebida. É o caso, por exemplo, de festas e casamentos, nas quais quem convida disponibiliza um site para presentes: invenção divina, onde até um energúmeno como eu, pode fazer bonito, pois os presentes são todos fictícios e o presenteado receberá o valor em dinheiro.

Para meu alívio existem também algumas festas, onde o aniversariante, num rasgo de generosidade, pede que eventuais presentes sejam convertidos em doação para obras de caridade: coisa sensacional, que tanto alívio traz àqueles que pertencem à categoria dos desprovidos de talento para presentear, que se formassem uma associação, eu faria questão de presidir.

Porém, para tudo na vida é preciso buscar uma solução e assim, desde os primeiros anos de casados, sobrecarrego minha mulher com o encargo de comprar os presentes da família e amigos, o que ela faz com incomparável desempenho, principalmente se a base de comparação for eu mesmo. Fica então apenas um caso, para meu desespero: os presentes destinados a ela mesma…

Dei tanto tiro n’água nos primeiros anos de casados, que ela, por pura misericórdia, depois de algum tempo, resolveu dar uma disfarçada dica nas proximidades do aniversário:

– Estou precisando de uma sandália azul. – dissimulou ela em certa ocasião, ao calçar uma vermelha.

Abraçado naquela dica, decidi investir tudo para, daquela vez, acertar na mosca. Em segredo, tal qual um detetive, examinei os sapatos dela e identifiquei umas duas lojas que eram da sua preferência. Observei ainda que possuía um sapato azul escuro e decidi então que este seria o tom da sandália. E fui além, notando com muita argúcia que as outras sandálias possuíam um salto bem alto, indicativo precioso.

Munido destas especificações detalhadas e em busca da superação, parti para a aquisição do produto. Pela primeira vez sabia o que queria e onde encontrar. Nasceu ali a esperança de pelo menos uma vez não passar vexame e até quem sabe, agradar de fato quem tanto merecia.

Adquiri o calçado logo na primeira das lojas selecionadas. Havia lá a sandália certa, na cor exata, com o salto no tamanho correto, tudo perfeito. Mandei embrulhar sem perguntar o preço. Quase escrevi para o Milton Friedman pedindo para acrescentar em sua brilhante formulação que, quando gastamos o nosso dinheiro em benefício de alguém que amamos, também buscamos mais qualidade que preço!

No dia do aniversário, com um orgulho indisfarçável e uma expectativa irreprimível, entreguei a ela o belo pacote, resultado de tanto empenho e esforço. Estava quase certo da minha redenção.

Ela, acostumada com o baixo padrão, recebeu o presente já preparada para o pior, mas surpreendeu-se:

– Da sapataria que eu gosto!

– Pois é… – esnobei.

Abriu então o embrulho com mais animação. Ao tirar a tampa da caixa, exclamou:

– Adorei… que linda!!!

– Gostou mesmo?

– Nossa. Amei! A cor, o salto, o modelo. Você adivinhou! – elogiou, enquanto examinava a peça.

As mulheres são dotadas de algum hormônio, talvez ainda não descoberto pela ciência, que as faz examinar um calçado por todos os ângulos antes de experimentar.

Eu estava esfuziante por ter superado aquela praga de anos. Parecia um paralítico que voltava a andar!

Até que, ao olhar a sola da sandália, ela teve uma surpresa:

– 34??????? Eu calço 36!!!!!!!!

Encerrei ali a minha infecunda carreira de presenteador. Há muitos anos escrevo um cartão amoroso e o presente fica por conta da presenteada!

 

Antonio Carlos Sarmento

25 comentários em “PRESENTE”

  1. Quando você quiser me presentear, peço que seja com uma Corvette, conversível , do ano 1974. É exatamente o carro dos meus sonhos e, com certeza, você jamais será esquecido !!!

    Parabenizo-lhe pelo brilhante texto. Ainda o verei vestir o Fardão da Academia Brasileira de Letras, apesar dos meus longevos 73 anos.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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    1. Amigo Carlos,
      Estive a ponto de comprar a Corvette, exatamente como você queria.
      Mas não sabia se a cor era a desejada e deixei passar a oportunidade…
      Faço sempre as escolhas eradas, mesmo… hahahahaha
      Grande abraço meu amigo!

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  2. Querido Cacau, temos um lindo dia de sol em Vitória e sua crônica me encontra tomando sol na varanda – recomendado nesses dias de confinamento.
    Leitura leve tão desejada nesses dias difíceis. Leve, mas real. Acredito que ( quase) todos os seus leitores se identificaram com a descrição da dificuldade de presentear.
    Eu sorri durante todo o texto- caiu como uma luva : foram uns 38 anos de frustração e de presentes errados para Adauto. Hoje a maturidade me consolou e eu o levo à loja para escolher. Simples assim …rsrsrsrs.
    Mas isso nao acontece com todas as pessoas. Na maioria das vezes gosto do que recebo e fico feliz com a atenção.
    E tenho o olhar voltado para reconhecer ” presentes” no dia a dia. Os de hoje já chegaram. Vamos desfazer os laços!!
    Beijos

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    1. Gena,
      Que bom desfrutar da leitura neste ambiente tão aconchegante da sua casa.
      E um solzinho torna tudo melhor.
      Fico feliz de te fazer sorrir um pouco nestes dias tão difíceis.
      Seus comentários são maravilhosos “presentes”!
      Beijos

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  3. Kkkkkkkkk. Lendo sua crônica lembrei daquela passagem bíblica que Diz: – Do pó vieste, ao pó voltarás… Agora vejo que ela se aplica 100% a nós homens. Somos iguais… Não destôo em nada de voce e de 99,9% dos homens. Candidato-me desde ja, a Vice-presidência da sua associação. Boa semana, se cuide e Deus nos proteja e abençoe.

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  4. AC,
    Já ouviu falar de uma pedrinha brilhante chamada diamante?
    Dizem que corrige 99,9% dessa falta de habilidade masculina.
    Fica a dica.
    Abs

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  5. Cau,
    Não concordo, você já me presenteou com poemas,orações e seus cartões amorosos são o melhor presente que podemos receber!!!!
    O que nos faz realmente feliz não vende nas lojas!!!
    Parabéns presenteador!!!!

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  6. Hahahahahahaha… essa foi mto leve e engraçada.
    Adorei a descrição de vovô. Lembro demais de uma faquinha (com a lâmina meio curvada) que ele adorava usar pra abrir as embalagens.

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  7. Prezado Sr Sarmento.
    Muito me orgulha verificar que sua distinta audiência é composta mormente de homens. Então ninguém melhor do que nós homens para entender e compartilhar da sua dificuldade em presentear bem as pessoas.
    Forte abraço.
    PS: Fiquei sabendo que sua filha Tatiana irá em breve para além-mar. Dê minhas lembranças a ela sim?

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  8. Meu querido amigo Antonio Carlos.
    Os fatos descritos nesta crônica tem várias semelhanças com as minhas atitudes quando também penso em presentear as pessoas próximas. Já errei por inúmeras vezes, esse é o meu enquadramento diante do texto. Parabéns!
    Fraterno abraço para a família.
    Oslúzio Félix Fonseca

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