ENTALADO

O riso pode conquistar um amigo. Mas uma gargalhada pode ser, dependendo do caso, uma forma de perder uma amizade ou ganhar um inimigo. Parece incrível que uma coisa tão agradável, contagiante e desejada como uma boa risada também possa ser inoportuna e causar mágoa. A idéia de que rir é o melhor remédio pode ser para quem ri, mas nem sempre é para quem se torna motivo do riso. É a diferença entre o engraçado e o ridículo…

Certa vez, ainda na minha juventude, vinha num ônibus de Copacabana para Laranjeiras. Naquela época era bem tranquilo viajar de ônibus no Rio de Janeiro. Eu estava sentado na fileira do corredor. De repente, uma bicicleta atravessou a frente do ônibus e o motorista afundou o pé no freio. Neste exato momento, um sujeito grandão, aparentando uns 30 anos de idade, estava caminhando pelo corredor na parte de trás se encaminhando para pagar a passagem. Como estava solto, com a freada foi lançado em velocidade, passou voando por cima da roleta e aterrissou no corredor central como um avião cargueiro sem trem de pouso.

Foi uma gargalhada geral, eu inclusive. O sujeito, ainda no chão, virou de lado e olhou para mim, só para mim. Depois se levantou o mais rápido possível, enquanto as risadas só aumentavam.

– O senhor se machucou? – perguntei, mas sem conseguir conter o riso.

O sujeito não respondeu. O ônibus prosseguiu um pequeno trecho e na primeira parada, ele decidiu saltar já que as risadas persistiam. Ao sair me olhou enraivecido e com as sobrancelhas arqueadas, disse:

– Mal educado!

As gargalhadas no ônibus multiplicaram por dez!

Felizmente nunca mais o vi em toda a minha vida. Mas até hoje quando me lembro deste episódio, minha boca espicha, as bochechas sobem e os dentes se mostram num sorriso. Só peço a Deus que ele não leia esta crônica e se identifique na história, pois perderia um leitor e ganharia um inimigo mortal!

Em outra ocasião, muitos anos depois, dois colegas de empresa em viagem a serviço passaram por algo inusitado. O destino era uma capital no nordeste do país, onde nossa empresa tinha interesses que demandavam muitas tratativas e reuniões.  Por ser um local de tantas viagens, a empresa já tinha convênio com um hotel em boa localização.

Os dois colegas chegaram num final de tarde e se hospedaram, recebendo apartamentos em andares diferentes. Combinaram então de descansar um pouco, tomar um banho e sair para jantar, marcando o encontro para 19:30h, na recepção.

O mais velho deles, beirando os 60 anos, chamava-se Marco Aurélio. Coube a ele um apartamento no último andar, bem no final do corredor. Ao chegar percebeu que era fora de padrão, parecendo um aproveitamento de área não projetada originalmente como uma unidade do hotel. Aparentava ser um anexo, quase fora do prédio. Marco Aurélio notou a atipicidade, mas não viu razão para recusar a hospedagem: instalou-se e resolveu tirar um cochilo antes do banho.

 Tirou os sapatos, ligou o ar condicionado e entregou-se ao prazer do repouso. O silêncio do quarto favorecido pelo afastamento do prédio principal e a cama convidativa proporcionaram o descanso tão desejado e necessário após a viagem de avião de algumas horas. O cansaço era tal que o sono prolongou-se além do horário e Marco Aurélio acordou atrasado, faltando uns quinze minutos para o compromisso com o colega.

O vício o fez ligar a televisão num noticiário e apressadamente foi tomar banho. Ao entrar no banheiro notou que o box era rodeado de uma mureta de alvenaria, revestida de cerâmica, de uns 50 centímetros de altura, formando uma espécie de minipiscina. Marco Aurélio achou aquilo esquisito, mas tirou a roupa e tentou entrar naquele “buraco fundo”, encontrando certa dificuldade. Era preciso levantar muito a perna e equilibrar-se na outra, fazendo um movimento amplo que contava com a oposição de sua idade e de sua barriga.

Resolveu ingressar de modo mais criativo e cômodo, sentando-se na tal mureta e girando para dentro do box, passando uma perna de cada vez, operação lenta e sincronizada, mas que foi bem sucedida.

Assim que a espuma do sabonete foi tomando conta do piso, este foi tornando-se escorregadio. Aí se deu o drama: realizando movimentos rápidos devido à pressa, Marco Aurélio escorregou e sentiu suas pernas subirem pela parede: caiu de costas na minipiscina! Seu corpo encaixou naquele retângulo profundo, ficando apenas braços e pernas para fora. O encaixe era tão perfeito que quase não conseguia se mexer. Uma dor mais forte vinha da pancada com o cóccix, mas havia outras espalhadas pelo corpo.

Tentou levantar, mas logo descobriu que seria impossível. Os braços estavam inutilizados, pois as muretas o prendiam pelos sovacos. As pernas também não podiam colaborar, já que as muretas pressionavam a parte interna das coxas, inviabilizando qualquer movimento útil para sair dali. Marco Aurélio estava nu, ensaboado e entalado!

Quando ele me contou o episódio e chegou neste ponto, eu dei uma gargalhada imperdoável. Uma não, algumas. E não me contive:

– Você estava mais que entalado, quase enlatado!

Ele se aborreceu e não queria mais contar a história. Pedi pelo amor de Deus que continuasse e tentei engolir o riso, o que obviamente foi impossível.

Muito contrariado, Marco Aurélio relatou que ficou ali, imobilizado como uma tartaruga de costas. Mesmo dolorido tentou gritar por socorro. A voz saía fraca e exacerbava as dores. Além disso, a posição do apartamento, meio para fora do prédio, o ar condicionado e aquela televisão ligada dificultavam que alguém o ouvisse.

O tempo passava e a única esperança dele era o colega com o qual havia combinado o jantar. Este chegou à recepção pontualmente e aguardou uns 10 minutos. Como Marco Aurélio não chegou, pediu que ligassem para o apartamento. O telefone tocou em vão. Aliás, não foi em vão, pois acendeu em Marco Aurélio a esperança de ser salvo daquela situação trágica e ridícula.

– Ninguém atende, senhor.

– Liga de novo. Ele deve ter dormido.

Mais uma tentativa e nada. O colega pensou na possibilidade de Marco Aurélio ter resolvido jantar sozinho e desistiu. Foi até a porta do hotel, parou na calçada para decidir em qual restaurante iria: lembrou de uma pizzaria ali perto e saiu caminhando.

Esta passagem foi irresistível para mim:

– Quase que a sua vida acaba em pizza!

– Vai pro inferno!

– Não, não. Desculpe. Continua por favor! Eu juro que não falo mais nada!

Marco Aurélio contou então que esperava a presença do socorro logo após os dois telefonemas. Mas o tempo passava e ele ia se desesperando. Em seu corpo duas sensações prevaleciam: dor e dormência. Aguardava a quebra do silêncio angustiante e a entrada de pessoas para retirá-lo daquele martírio.

– Pessoas ou um guindaste? – pensei, ri e não falei.

Mas o riso foi notado por Marco Aurélio, que abreviou o fim da história com muita má vontade e depois disso passou a evitar a minha companhia de modo definitivo.

Resumiu que, no caminho da pizzaria, o colega compreendeu o absurdo da situação: ninguém em sã consciência iria marcar um jantar e depois mudar de idéia sem avisar. Resolveu então voltar ao hotel.

Insistiu, abriram o quarto e retiraram Marco Aurélio com certa dificuldade, levantando-o pelos braços primeiramente até que pudesse sentar na mureta, posição que deu início a toda esta novela.

O episódio não teve maiores conseqüências e no dia seguinte, ainda com algumas dores, Marco Aurélio participou da reunião.

Foi o caso em que um jantar salvou uma vida! E uma gargalhada estragou uma amizade!

 

Antonio Carlos Sarmento

13 comentários em “ENTALADO”

  1. Caro Sarmento, tenho o péssimo hábito de “perder o amigo mas nao perder a piada”… entendo que existem situações em que nao gargalhar é perder a chance de desintoxicar o figado… Feliz daquele que consegue rir de si mesmo. Pra mim, rir é sempre o melhor remedio. Bom domingo e fique com Deus.

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  2. Prezado Antonio Carlos:

    Pela minha modesta experiência, uma gargalhada para uns pode ser de satisfação e para outros fortes motivos de desconforto ou isatisfação.

    Sds

    Carlos Vieira Reis .

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  3. Ei primo, eu tb tenho muitas histórias com gargalhadas de tirar o folego. O bom é que não perdi amigos. Mas, dependendo da situação, fica o desconforto. Bjs

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    1. Queridos Ricardo e Leila,
      Fico muito contente de saber que estão acompanhando as crônicas regularmente.
      Desejo que estejam muito bem e que em breve possamos fazer mais um dos nossos agradáveis encontros.
      Um grande abraço!

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  4. Beleza aquele riso que não para, aquele aperto na barriga, aquela sensação de alegria que se estende pelos dias seguintes pois , só de lembrar começamos a rir de novo.
    Essa risada diverte e deixa saudade.Não conseguimos falar dela sem ao menos esboçar um sorriso.
    Acredito que a gargalhada diante de um situaçao vexatória ou acidental se deve à imaturidade. Com certeza, crescemos em empatia e sabemos o que significa a humilhaçao ou a aflição. E isso não tem graça .
    Cacau, suas crônicas sempre levando a reflexões com leveza e bom humor.
    Grande abraço!

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  5. É uma realidade esse comentário contido no texto:
    “A idéia de que rir é o melhor remédio pode ser para quem ri, mas nem sempre é para quem se torna motivo do riso”.
    Obrigado meu bom amigo Antonio Carlos.

    Oslúzio Fonseca

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