A BORDO

Antes de entrar no caso que vou contar, preciso que o paciente leitor possa suportar umas poucas conjecturas. Refiro-me a certa opinião muito aceita, quase consensual, mas que talvez eu não compreenda completamente ou interprete de modo inadequado.

É a afirmação de que devemos viver o presente, pois o passado é história e o futuro é mistério. Em outras palavras, o simples conselho de que temos que focar no presente, pois o passado já se foi e o futuro talvez não chegue. Viver o aqui e agora!

Não me parece que seja assim tão simples e óbvio.

De fato, podemos cometer o erro de querer o passado de volta e até acharmos que experiências vividas são reprisáveis. Já tentei algumas vezes, devo confessar, mas o fracasso é garantido. Certa vez, resolvi voltar com minha mulher a um maravilhoso hotel, uns 10 anos depois. Nada de errado na viagem em si, mas sim na expectativa de que viveríamos de novo aqueles dias memoráveis. A repetição não ocorreu: o hotel, em grande decadência, não era o mesmo e nós, embora em menor decadência, víamos tudo com outros olhos, modificados por mais 10 anos de vida.

Nossas experiências do passado são irrepetíveis, pois nós mesmos, transformados pelo tempo, seremos sempre pessoas diferentes daquelas da ocasião. O tempo nunca volta.

No entanto, me parece que isto não retira a importância do passado, pois foi de lá que viemos, lá estão as nossas raízes, nossa história, nossas experiências, nosso aprendizado. Se é assim, o passado não se foi, não é apenas história, mas está vivo em nós, acumulado, agindo e influenciando tudo que somos e fazemos. Ou seja, o passado existe no presente!

É certo também que não podemos viver no futuro, nem projetarmos eternamente nele o momento de sermos verdadeiramente felizes, erro em que muitos de nós incorremos. Porém, como nos prepararmos para o que está por vir, sem viver antecipadamente um pouco do que ainda não aconteceu? Precisamos planejar coisas, fazer projetos, ter objetivos a alcançar, provisionar recursos e obter o preparo necessário para os desafios pretendidos. Ou seja, o futuro existe no presente!

Sendo assim, é possível que passado, presente e futuro se entrelacem em nós inevitavelmente: recolhemos referências no passado e formulamos planos no futuro para podermos viver plenamente o presente.

Dito isso, para alívio do leitor, passo então a contar o caso ocorrido com meu amigo Maurício, que me veio à memória devido a estas reflexões. De pronto, devo alertar, que o relato é impróprio a menores de 18 anos, já que envolve bebida alcoólica…

Como muitos apreciadores de drinks, Maurício parecia alcançar, sob efeito do álcool, exatamente o sentimento de viver mais o presente, aliviando-se do peso do passado e com menos preocupações sobre o futuro. A bebida o levava a viver o verdadeiro “carpe diem”, expressão cunhada pelo poeta romano Horácio: aproveite o dia, viva o agora, esqueça o que passou e o que irá passar… Não posso jurar, mas tenho quase certeza de que Horácio concebeu esta famosa expressão após generosas taças de vinho, tão apreciadas no império romano.

Chego a cogitar se não seria este o efeito da bebida alcoólica e o que a torna tão apreciada no mundo todo: afrouxar um pouco os laços do passado e a ansiedade do futuro, permitindo-nos viver mais intensamente o momento presente, o que representa um verdadeiro alívio!

Mas vamos a história. Um observador menos atento sequer notaria os efeitos do álcool em Maurício, já que dificilmente ficava tonto ou enrolava a língua, sintomas típicos daqueles que cometem excessos etílicos. Mesmo após algumas doses, ele permanecia tranquilo e equilibrado, como que imune aos efeitos da bebida. Porém, na realidade, a transformação estava lá, em sua mente. Carpe diem!

No dia fatídico em que se deu o caso, Maurício compareceu à uma feira de barcos. Eram dezenas de lanchas e iates de todos os tipos e preços, expostos com arte e marketing em estandes muito bem montados e iluminados. E, claro, tudo irrigado por abundantes bandejas de whisky escocês, generosa e fartamente distribuídas por um exército de garçons.

Maurício, sujeito sensato, no início observava tudo friamente, pois sabia o preço e custo das embarcações de lazer. Eram objeto de seu desejo, mas a prudência e sua conta bancária contraindicavam veementemente qualquer iniciativa para concretizar aquele sonho.

Entretanto, após algum tempo, não resistiu e aceitou o primeiro copo alto de whisky, com bastante gelo. Perdida a virgindade e sendo grande apreciador do scotch, dali em diante Maurício imergia com destreza nos copos, parecendo um praticante de saltos ornamentais ao executar mergulhos artísticos: carpado, revirado, parafuso, etc…

Ali pela quinta ou sexta dose, nosso herói se deparou com uma maravilhosa lancha de 32 pés, branca e azul, lindíssima. A esta altura a síndrome de “carpe diem” já estava instalada e em estágio avançado. Maurício, com laços fracos ou quase rompidos com o passado e com o futuro, ingressou no estande com ares de comprador.

Examinou a lancha por fora, rodeando-a como um galo no ritual de acasalamento. Depois, com os olhos vidrados, subiu a escadinha que dava acesso ao interior da embarcação e examinou os detalhes. Quando sentou na posição de comando e colocou a mão no timão, imaginou:

– Todos a bordo! Vamos zarpar!

O vendedor, experiente, percebeu ali a possibilidade do negócio e pediu ao garçom do estande para oferecer mais uma dose, prontamente aceita por Maurício, que a esta altura já realizava mergulho duplo mortal de frente…

Os detalhes do desfecho, que não poderia ser outro, deixo ao sabor da criatividade do prezado leitor.

Maurício acordou no dia seguinte, uma tranquila manhã de sábado, sentindo a cabeça pesada e o corpo doído, como se tivesse lutado uma disputa de cinturão de UFC. Era quase meio-dia.

Buscou o copo d’água na mesinha de cabeceira e deparou-se com um papel branco dobrado, bem ao lado da carteira. O leitor não há de estranhar, mas Maurício estranhou…

Desdobrou o papel e ficou estarrecido: era o recibo de sinal para a compra de uma lancha 32 pés! O valor total era um descalabro: quase um apartamento e ele sequer tinha saldo bancário para o sinal de 15%. Correu em busca do talão de cheques e estava lá o valor, lançado no canhoto. Meu Deus!

Ponderou que poderia ir ao banco na segunda-feira de manhã e sustar o cheque, mas percebeu que não seria a atitude correta e resolveu ligar para o vendedor. O nome e telefone estavam lá, no malfadado recibo.

– Rogério Prado?

– Sim.

– Bom dia. Aqui é o Maurício Costa. Estive ontem à noite no seu estande.

– Ah, me lembro sim. O senhor fez uma excelente compra: a lancha é fantástica!

– Eu sei. Mas preciso cancelar.

– O quê?

– Cancelar. Vou passar aí no estande, devolver o seu recibo e pegar o cheque.

– Mas por que, Sr. Maurício?

– Porque não tem saldo. Eu me empolguei na hora, pensei só no momento presente. Mas não tenho nem o dinheiro do sinal, quanto mais da lancha.

– Se o senhor não tinha o dinheiro por que comprou?

– Por causa do seu funcionário.

– Meu funcionário? Quem?

– O Johnnie Walker…

Cerca de uma hora depois, Maurício entrou e saiu da feira olhando feio e recusando qualquer aproximação de garçons. Ao chegar em casa, rasgou o cheque que lhe permitiu ser o feliz proprietário de uma maravilhosa lancha de 32 pés, branca e azul, lindíssima. Por cerca de 12 horas… Carpe diem!

 

Antonio Carlos Sarmento

22 comentários em “A BORDO”

  1. Tenho um amigo que não pelo efeito do álcool mas devido a um bipolarismo diagnosticado vez em qdo, na fase euforica da doença, comprava ilha, helicoptero, lanchas e carros caríssimos! Passava cheques e depois ficava complicado pq sua esposa é que ameaçava os vendedores por venderem pra uma pessoa notadamente em desequilíbrio. Hoje, bem de saude mas sob remedios controlados voce rolaria de rir das histórias que ele conta. Bom domingo fique com Deus. Alias, pra variar, excelente crônica!

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  2. Prezado Amigo, Muito bom dia, Sensacional!!! A delícia das suas crônicas está, penso eu, nos finais inusitados . . . Parabéns!!! Recomendações à família.

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  3. Caro Antonio Carlos:
    A história do Mauricio faz-me ter certeza de que o álcool não é bom companheiro, pode trazer instantes de satisfação, mas, depois, quando a ressaca chega, acompanhada da sobriedade, as consequências podem ser catastróficas. Ainda bem que o vendedor consentiu em anular o recibo e o cheque. Sorte do Mauricio.
    Sds. e parabéns pelo excelente artigo, cuja leitura dominical, já passou a ser um saudável hábito em minha vida.
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Fico muito contente que tenha adquirido o hábito de ler as crônicas aos domingos.
      E, felizmente, sempre se dedica a fazer seus comentários, o que é muito bom para quem escreve.
      Abraços meu amigo e fiel leitor!

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  4. Olá meu amigo, tenho lido suas crônicas e acho todas ótimas.
    Esta em especial me fez lembrar alguns episódios meus com este mesmo funcionário da lancha..rsss
    Grande abraço.

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  5. Que história meu irmão!!!
    Transparente sua análise perfeita dessa tríade que nos acompanha diariamente “brigando” pela soberania: passado, presente e futuro!!
    Quantos Maurícios temos na sociedade e me fez lembrar o que sempre digo aos meus filhos:
    Tão importante quanto ganhar é saber gastar!!!
    Vai UM whiskynho aí?hahahaha

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  6. Muito boa !
    Esse Johnnie Walker é ótimo vendedor, também é santo casamenteiro e etc…principalmente quando se torna um amigo inseparável, Maurício parou a tempo com essa amizade , imagina o que poderia comprar na companhia desse amigo Johnnie…

    Imagino a cara do Maurício, quando ele viu que havia dado sinal para a compra de uma lancha !!!

    Parabéns Cacau , muito bem sacada …

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    1. Faaaala Chico!
      Achei que você nem iria entender a crônica: não bebe nada… hahahahaha
      Mas claro que sabe que muitas vezes a bebida é usada com fins comerciais e outros, que não o simples desfrutar de um drink.
      Obrigado pelo comentário meu querido amigo !!

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  7. Querido amigo.
    Realmente foi um alívio quando você saiu da controvertida reflexão sobre passado, presente e futuro e entrou na história do Maurício que pelo jeito além do fiel amigo Johnnye Walker ganhou também a amizade do dono da lancha…
    Como sempre uma crônica de recado bem frequente.
    Como metáfora adicional e bem bolado fico hoje com o exame da lancha rodeando-a como um galo num ritual de acasalamento…. Gostei também da UFC…
    Parabéns.
    .

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    1. Querido amigo Nei,
      Quando escrevi a metáfora do galo, na hora me lembrei de você. Pensei: o Nei vai comentar esta!
      Acertei na mosca. É interessante como algumas coisas chamam a minha e a sua atenção: sincronicidade!
      Grande abraço meu querido amigo!

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  8. Filosofar sobre o tempo, tentar achar o elo perdido entre passado presente e futuro!
    É certamente um desafio memorável.
    O presente é simplesmente o resultado da operação matemática de soma do passado com o futuro e sobre os quais pensamos ter ou tido algum tipo de influência.
    A expressão cunhada por Horácio nos remete a um brevíssimo momento de nossas vidas sendo que o que realmente existe é o passado e futuro.
    Na realidade tratamos o passado recente como presente, acredito até que não por imposições filosóficas mas sim por razões intrinsecamente de sobrevivência.
    Quanto ao nosso personagem que como todos nós precisamos alimentar e engordar o futuro pra garantir a sanidade do “passado recente”, acabou deixando se levar pelo funcionário etílico e abreviar a chegada do tão sonhado futuro.
    Felizmente o remédio “tempo” o trouxe de volta terminando em um final feliz.
    Parabéns Antônio Carlos por mais uma crônica belíssima e nos remeter as intrincadas sabedorias do nosso mestre tempo!

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    1. Querido primo Rômulo,
      Agradeço por recuperar ou refazer seu comentário que havia ficado perdido. Valeu a pena.
      Você enriqueceu e foi além das minhas reflexões “o que realmente existe é o passado e o futuro”.
      Obrigado e um grande abraço!

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  9. Querido primo,
    Desta vez, o cronista deu a voz ao filósofo .
    Suas reflexões vieram ao encontro do conceito que tenho desses momentos da vida: realmente, o passado não se apaga- nele estão as raízes e as razões do que somos. O presente é a hora da semeadura de nossos planos e de nos deleitarmos com mais um dia de vida que é um maravilhoso presente!!!
    O futuro ? Nao temos dominio sobre ele, mas é recheado de esperança porque sabemos em quem temos crido.
    Mauricio afogou o”Carpe Diem” na bebida. Seu dia seguinte ficou bem amargo.
    Até domingo!
    Feliz por compartilhar idéias com você.

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  10. Cacau, eu já estava preocupada com o final desta história. Que alívio o Maurício ter conseguido cancelar a compra daquela lancha!
    Esta crônica confirma a ideia de que não podemos viver apenas o momento presente – que logo será passado -, sem nos preocuparmos com o futuro que se aproxima.
    O passado traz ensinamentos das experiências vividas, mesmo que não possamos voltar a vivenciá-las de forma idêntica, como foi o caso daquele hotel que, após 10 anos, estava em decadência.
    O futuro, apesar de incerto, torna-se estímulo à esperança, que é fundamental para viver o presente, que, por sua vez, poderá influenciá-lo.
    Assim sendo, o passado, o presente e o futuro estão inseparavelmente unidos.
    Beijos para você e a Sônia!

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