FILME MUDO

Eu fazia uma longa viagem de carro com minha mulher e minha filha, de Foz do Iguaçu para Curitiba, há uns 30 anos. Eram 650 km de distância, coisa de 9 a 10 horas de viagem num carro sem ar condicionado, coisa que, acreditem, existia naquela época. Se fosse hoje, mesmo no conforto da temperatura agradável e sem o incômodo da ventania entrando pelas janelas, eu não iria além de uns 300km no total, divididos em três partes iguais: o início apreciando, o meio sem desfrutar e o fim ansiando por chegar.

Após uma hora de estrada, ainda antes de Cascavel, minha filha, na ocasião uma criança de 4 anos, pediu para ir ao banheiro. Eu já esperava por isto e sabia que iria repetir-se várias vezes ao longo do trajeto. Um pouco impaciente com a comprida viagem que tinha pela frente, parei no primeiro posto de gasolina e resolvi ficar aguardando dentro do carro para abreviar ao máximo aquela interrupção. Se fosse hoje, eu teria saltado para beber uma água mesmo sem sede e comer alguma coisa mesmo sem fome.

O posto era daqueles destinados a caminhoneiros, com muito espaço para estacionar e pernoitar, mas estava praticamente vazio naquela hora. À esquerda ficavam as bombas de abastecimento e bem à direita, lá no fundo do amplo terreno, ficava a lanchonete com os banheiros. Esta possuía uma fachada de vidro, com uma porta de entrada onde se recebia uma comanda e uma porta de saída única para controlar o pagamento das despesas, ambas sinalizadas com uma grande placa no topo. Fiquei aguardando com o carro desligado e ouvindo música. Se fosse hoje, manteria o carro ligado para conservar a temperatura e talvez dedilhasse o celular em busca de algo interessante.

De repente ouvi um estrondo vindo de trás do carro. Olhei pelo retrovisor e uma enorme carreta vinha entrando no posto em alta velocidade. Era como um carro de fórmula 1 voando numa rua de paralelepípedos. O piso do posto era mal conservado e todo cravejado de saliências e reentrâncias, fazendo lembrar uma perna cheia de celulite. O caminhão sacolejava e a caçamba vazia saltava como um grilo, cricrilando e produzindo os ribombos que me assustaram. Fiquei apavorado. Se fosse hoje, teria ficado apenas preocupado.

A carreta parecia desgovernada. Seguiu em linha reta em meio a um vazio do enorme posto. Subitamente deu uma guinada de direção, apontando para a lanchonete. A mudança de rumo fez a caçamba escalavrar o piso, quicando e girando ao mesmo tempo. A louca manobra pelo menos fez cair a velocidade. Assim, o caminhão aproximou-se da lanchonete e terminou seu percurso na contra mão, sendo abandonado displicentemente junto à calçada da frente, onde setas no piso indicavam a circulação em sentido contrário. Ali era exatamente a pista de saída da área de estacionamento onde eu me encontrava. Permaneci dentro do carro, observando.

Pude então ver que o motorista, se é que posso usar esta qualificação para aquele irresponsável, estava acompanhado de uma mulher. O tipo saltou. Por incrível que pareça estava sem camisa e descalço, com uma bermuda arriada indecentemente abaixo da linha da cintura. Mas não foi o trajar e sim o andar que me estarreceu: ele deu três passos errantes e caiu de joelhos na calçada. Levantou com ajuda da mulher que veio em seu socorro e tentaram entrar pela saída da lanchonete. Foram contidos por um rapaz que guardava a porta. O moço indicava a entrada correta, mas o casal de pombinhos insistia em entrar por ali. Se fosse hoje eu tentaria ligar do celular para a polícia, denunciando o fato de uma pessoa totalmente embriagada estar dirigindo uma carreta.

A celeuma se prolongava e minha mulher não retornava. Um outro homem veio do interior da lanchonete para acudir o rapaz. De onde estava, eu via a balbúrdia e, mesmo sem poder ouvir, compreendia toda a situação pelos gestos e movimentos, como num filme mudo.

Para maior surpresa ainda, o pseudo motorista após muito esbravejar e xingar, cambaleou até a cabine do caminhão e pegou uma garrafa de bebida, tomando goles direto do gargalo. Para mim foi a gota d’água. Eu precisaria fazer alguma coisa. Se fosse hoje eu também decidiria fazer algo para impedir aquela carreta de voltar à estrada, ameaçando a vida de pessoas e com potencial para criar um grande desastre.

Aos empurrões, os dois empregados do posto resolveram expulsar o digno casal. Eles então entraram de volta na cabine e, inconformado, ouvi o motor da carreta roncando. Exatamente nesta hora, minha família chegou. Eu já estava com o carro ligado e sequer dei atenção aos detalhes das peripécias sanitárias apresentadas como justificativa para a demora excessiva. Pedi que entrassem com a maior rapidez possível e enquanto a carreta iniciava seu deslocamento, acelerei determinado a sair na estrada antes daquele alucinado.

Meu plano era bem simples: voar na frente dele e chegar o quanto antes num posto de polícia rodoviária a tempo de avisar para deter aquele caveirão. Sacudi nas celulites do posto sob reclamação das minhas companhias femininas que, desinformadas da situação, protestavam pelo desconforto e imprudência. Em poucas palavras fui contando o filme mudo que tinha assistido e ambas silenciaram. Alcancei a saída alguns segundos antes dele.

Entreguei-me então à velocidade. Literalmente afundei o pé no acelerador. Não conseguia tirar o olho do retrovisor. Nos primeiros metros ganhei uma boa distância, pois o carro, devido ao peso menor, alcançou mais rapidamente a velocidade. Animei-me. Mas o trecho era plano e o caminhão pilotado por aquele desvairado foi ganhando velocidade. Angustiado, percebi ele sambando e gradualmente crescendo no meu retrovisor.

Logo havia um carro à minha frente, em velocidade menor, claro, pois naquela estrada a mais de 120 km/h só havia dois tresloucados, eu por necessidade e ele por irresponsabilidade. Com incorrigível otimismo, já conhecido de meus leitores, imaginei fazer a ultrapassagem e ele não, talvez por uma curva ou veículos em sentido contrário. A pista estava livre e o trecho era reto de modo que passei sem aliviar o acelerador e sequer tocar no freio. Ele idem…

Minha mulher olhava para trás e avisava o que eu já sabia e não queria ouvir: ele está bem aí atrás! Balançando de um lado para o outro.

Seguimos assim por uns 3 minutos, que valeram 30. Em seguida veio uma subida longa, de aclive moderado, mas muito conveniente para mim. Meu pé colado queria fazer o pedal penetrar no tapete. Ao longo da subida o caminhão foi diminuindo no retrovisor. Porém, o velho ditado “tudo que sobe, desce” ressoava na minha cabeça e eu temia, imaginando que a vantagem dele na descida seria maior que a minha na subida.

Porém, era uma pequena serra e após a subida a estrada manteve-se plana por mais um tempo, o que preservou minha vantagem. Pela primeira vez na vida eu rezava para chegar na polícia rodoviária.

Segui um bom tempo, talvez uns 20 minutos, com ele à distância. Em alguns trechos, pelo desenho da estrada, eu sequer via a amedrontadora imagem do caminhão em meu espelho. Quando voltava a vê-lo, meu pé chafurdava automaticamente no acelerador. Eu corria para salvar vidas, inclusive as da minha família.

O nervosismo já nos dominava por completo quando avistei um posto da polícia rodoviária. Não desacelerei. Era como socorrer um enfartado: qualquer segundo poderia ser vital.

Percebendo a descabida carreira, um guarda postou-se no meio da estrada e acenou para a minha parada, sem saber que era o que eu queria e faria. Parei abruptamente:

– Seus documentos! – brandiu o guarda, indignado.

– Meu amigo, vem uma carreta aí com o motorista completamente bêbado. Pelo amor de Deus! O sujeito pode provocar um grande desastre. Eu respondo por tudo que fiz. Tome a chave do meu carro para garantir que não vou sair daqui, mas primeiro pare o caminhão. Por favor!

Tentei ser convincente e consegui. O guarda pegou minha chave e gritou para dois colegas, que logo vieram ao seu encontro. Eu fiquei imaginando que poderia ser muito arriscado para os guardas apenas ficar na pista e sinalizar para deter o caminhão. Mas o tempo não possibilitava outra alternativa. Apressadamente tirei minha família do carro, atravessamos a estrada e ficamos na porta do posto da polícia, aguardando o final daquele filme mudo, cheios de expectativa e emoção.

O caminhou apontou no final da reta. Eu tremi só de pensar na possibilidade de ele não parar e a tragédia que poderia daí decorrer. Os três guardas estavam lado a lado na pista, sinalizando com os braços para deter aquele meteorito descontrolado. Com grande tensão busquei perceber se o bólido reduzia a velocidade, mas do ponto de vista em que me encontrava era difícil. Aos poucos, notei que parecia diminuir o ímpeto. Mais um pouco e tive certeza de que estava reduzindo e ia parar no bloqueio. Foi como tomar um banho quente: um relaxamento agradável percorreu todo o meu corpo.

O caminhão parou atrás do meu carro, na lateral da pista. A mulher, descabelada, desceu rapidamente e abordou os guardas dando explicações. Eles sequer responderam. Foram até a porta do caminhão e ordenaram ao desatinado do volante que saltasse.

Reuniram-se todos na frente do caminhão e um guarda ordenou que o pinguço fizesse um “quatro”, o equivalente ao bafômetro de hoje em dia. Ao tirar a perna direita do chão para cruzar na altura do joelho esquerdo, ele quase foi ao chão, tendo que segurar na grade do caminhão para manter-se de pé.

O meliante foi então recolhido para o interior do posto, com um guarda pendurado em cada um de seus braços, seguidos pela personagem feminina da história, que a meu ver, merecia uma penalização por ser cúmplice da inconsequente jornada.

Nós ficamos numa espécie de sala de espera aguardando o desfecho dos acontecimentos. Minha filha aproveitou e foi ao banheiro, claro!

Após alguns minutos, outro guarda veio até mim:

– O motorista vai ficar detido e a carreta será recolhida. Dependendo do prontuário dele, poderá ter a habilitação cassada definitivamente. O senhor poderia ser testemunha, caso seja necessário?

– Claro. – respondi prontamente.

O guarda então anotou meus dados e me liberou. Mas as chaves estavam com o colega e tive que ir até ele.

– Já estou liberado. Pode me devolver a chave do carro?

Ele olhou para a chave na palma de sua mão direita, depois olhou para mim, voltou a olhar para a chave, indeciso.

– O radar pegou o senhor em grande excesso de velocidade.

Fiquei calado. Os argumentos fervilhavam na minha cabeça, mas achei melhor não me defender e deixar o julgamento a critério dele, já que estava a par de tudo.

Ele vacilava. Era como se tivesse despido o uniforme de policial e vestido a toga. Julgava algo complexo: alguém descumpriu a lei para fazer cumprir a lei. Por alguns instantes, bateu as pálpebras seguidamente como a digitar pensamentos.

Até que finalmente, parou de bater as pálpebras e bateu o martelo. Ofereceu-me a chave, calado, mas com um sorriso nos olhos. Sem dizer uma palavra deixou claro que não inocentava, porém absolvia. Foi a última cena do filme mudo!

Dali até o próximo posto onde minha filha pediu para parar, fui pensando no papel de testemunha. Até aquele dia eu pensava que o depoimento de uma pessoa deveria ser sempre imparcial e tão somente atestar a veracidade de um ato. Não caberia ajudar a defender nem a acusar, mas concentrar-se única e exclusivamente em fornecer elementos factuais para um julgamento justo. Uma fotografia e não um quadro feito por um pintor, no qual sempre está presente seu sentimento. Se assim fosse, nem haveria sentido falar-se em testemunha de defesa ou de acusação. Simplesmente testemunha, neutra. Bela teoria.

Avaliei na época que se fosse chamado a depor, fato que nunca ocorreu, eu faria questão de ser uma testemunha de acusação! Sem nenhuma imparcialidade.

Se fosse hoje, também!

Antonio Carlos Sarmento

18 comentários em “FILME MUDO”

  1. E pensar, Sarmento, que isso é mais comum do que se imagina. Existem irresponsáveis, melhor dizendo, assassinos travestidos de motoristas cruzando as estradas e a vida de gente inocente. Triste história! Bom domingo e que Deus nos proteja desses desatinados.

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  2. Prezado Amigo, Muito bom dia, Ler suas crônicas resulta um dia mais alegre e, sobretudo, mais culto, com certeza . . . onde você foi buscar o cricrilando e o ribombo? Eu tive que ir no Google, mas valeu . . . Parabéns! Recomendações à Sonia.
    Livre de vírus. http://www.avast.com .

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  3. Lamento pelo tresloucado risco que você correu, tentando as habilidades de um Emerson Fitipaldi numa pista de corridas.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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  4. Excelente texto. Vindos de Brasília para o Rio, fomos cortados na estrada por um caminhão cheio de bêbados, no volante e na carroceria, que atravessou a BR, saindo do nada.
    Um guinada abençoada, dada por meu motorista preferido, salvou nossas vidas.
    É muito bom recebermos suas crônicas aos domingos, começamos o dia com arte e isso é maravilhoso!
    Há muito anos (1980), fizemos essa viagem que você descreveu, com nossa filha.
    Continue a despertar lembranças em seus leitores. Aquece o coração.
    Um abraço grande.

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  5. Motorista dirigindo bêbado continua acontecendo, infelizmente.
    Você se arriscou para ajudar e evitar uma tragédia e teve êxito.
    Belo exemplo de cidadania.
    Um abraço.

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  6. Dualidade de tempo, palavras estrategicamente trocadas, a dificuldade de se fazer julgamentos justos e justiça.
    Enfim, um caldeirão que só a crônica inusitada de um mago podem resultar em algo de bom e até cômico.
    Parabéns!

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  7. Infelizmente, é uma realidade nas estradas do nosso país.
    Tenho em minha memória, um acontecimento trágico, com um casal de irmãos, meu amigos jovens,e a mãe deles.
    Eu sempre que estou na estrada , tenho muito medo de caminhões.

    Sua crônica é muito importante, pata cada vez mais ficarmos atentos.

    Grande Abraço

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