VIZINHO PERIGOSO

As ruas de uma cidade só deviam ter prédios de um lado. Assim todos teriam uma vista mais ampla, melhor ventilação e, principalmente, privacidade dentro de sua própria casa. A privacidade é um tesouro; sem ela a liberdade fica pequenina…

Desde a invenção dos apartamentos tivemos que nos adaptar a viver em compartimentos verticais, amontoados por cima e pelos lados de vizinhos, nem sempre agradáveis e compreensivos. Além de ter que compartilhar áreas e serviços comuns, o que acaba sendo foco de desavenças e conflitos constantes.

Porém, além disso, ter que morar defronte às janelas de outro prédio, a 10 metros de distância, já passa um pouco dos limites. A esta distância é possível uma perfeita visualização do que se passa no interior de vários apartamentos alheios. E, pior, a recíproca é verdadeira. Morar assim é quase como morar numa vitrine!

Sempre é possível fechar janelas ou cerrar cortinas, mas num ambiente fechado desta maneira há muito prejuízo da ventilação e da iluminação natural. Morar assim é quase como morar num escritório!

Pois bem, ele morava numa rua dessas com um paredão de prédios bem em frente, como existem em quantidade pelo Rio de Janeiro. Eu conheci o seu prédio, pois era meu colega no escritório e todos os dias me dava uma carona no final do expediente. Eu saltava na porta do prédio dele e dali seguia a pé até minha casa, a uns 20 minutos de distância.

Otávio era uma pessoa interessante. Beirava os 50 anos e, portanto, bem mais experiente que eu, recém-formado e estreante no mundo do trabalho. No caminho íamos sempre conversando e aos poucos fomos nos conhecendo mais, descobrindo hábitos e gostos em comum. Em pouco tempo aquela carona já se tornava um momento de prazer e de muitas risadas, como saberá o leitor que tiver paciência de prosseguir mais um pouco na leitura.

O hobby preferido de Otávio era o radioamadorismo. Possuía habilitação e licença legal. Através da atividade exercitava conhecimentos de eletricidade, eletrônica, matemática e comunicação, portanto um hobby técnico-científico. Contou-me em detalhes os equipamentos que dispunha e como se comunicava com outros radioamadores de lugares distantes. Até que algo aconteceu e o hobby transformou-se em algo hilário que até hoje recordo. Passo a contar.

Certo dia, cerca de umas oito e meia da noite, em busca de um espaço mais amplo para a propagação do sinal de rádio, Otávio posicionou-se na janela da sala com seu aparelho de radioamador. Quando realizava tentativas de comunicação, percebeu que, ao pressionar a tecla do rádio portátil, o sinal interferiu na televisão do vizinho em frente, cuja sala ele visualizava perfeitamente. Soltou a tecla e a televisão voltou ao normal.

Otávio achou que poderia ter sido uma coincidência e, para testar, acionou novamente o equipamento. Bingo!  A imagem sumiu e a televisão apresentou um chuvisco na tela inteira. Soltou o botão e tudo voltou ao normal.

Desligou o aparelho e foi jantar. Mas a realidade é que a descoberta transformou Otávio. O fato não saía de sua cabeça e sua veia cômica começou a descortinar um sem número de possibilidades.

Na carona do dia seguinte, Otávio me colocou a par dos acontecimentos. Expôs o dilema: se não podia usar o equipamento de radioamador para sua verdadeira finalidade, outras possibilidades precisariam ser desenvolvidas. Disse que ainda pensava no assunto e que, naquela noite, iria observar os hábitos do vizinho:

— Quem sabe ele sempre desliga a televisão cedo? Se assim for, poderei me dedicar ao hobby um pouco mais tarde, sem nenhum problema — disse-me, com um certo cinismo, como depois ficou claro.

Os hábitos do vizinho eram os de quase todo mundo. O casal ligava a televisão após o anoitecer, a mulher via a novela antes do telejornal, depois o marido assistia o noticiário e, após isso, ela voltava para mais novela. Estabelecido o cenário, Otávio urdiu um plano diabólico, escolhendo o marido como vítima preferencial.

Logo no dia seguinte colocou-o em execução. Postou-se por detrás da cortina de sua sala, com sua própria televisão ligada para acompanhar melhor os tempos e movimentos. Na posição estratégica em que se encontrava via o sofá e a televisão da sala da vítima sem ser visto. Aquela sala era o palco da peça cômica que iria assistir.

Terminada a novela, como previsto, o vizinho refestelou-se no sofá, atento ao seu programa preferido. Otávio, acompanhando por sua própria televisão, aguardou o anúncio do telejornal, com as principais manchetes, sem interferir em nada. Mas assim que começaram as notícias seu dedo não resistiu e apertou o “gatilho”.

A TV chuviscou e o vizinho indignado saltou do sofá em direção a parte traseira dela, mexendo em cabos e conexões. Otávio, entre gargalhadas, aliviou o botão e tudo voltou ao normal. O sujeito sorridente voltou ao sofá e Otávio sorridente aguardou o segundo ato, sentindo crescer em si o espírito satânico.

Deixou o sujeito em paz no primeiro bloco de notícias. O plano era criar um reflexo condicionado: mexeu nos cabos, a televisão volta a funcionar. No início do segundo bloco do telejornal repetiu-se a cena. O vizinho bufou um pouco, mas levantou e foi direto nos cabos: logo o problema estava resolvido!

Otávio gargalhava a cada início de bloco e mesmo com a sua TV ligada não prestava atenção a nenhuma notícia, concentrado no evento principal que se desenrolava na outra sala de estar, transformada em sala de espetáculos.

No último bloco o sujeito deu um murro no braço do sofá e levantou muito a contragosto para restabelecer a imagem. Foi assim que o hobby técnico-científico se transformou em um hobby cômico-recreativo.

Ele me contou este primeiro dia com riqueza de detalhes e quase batemos o carro de tanto rir… Acrescentou ainda que, propositalmente, durante as novelas pré e pós noticiário, não interferiu de modo a aumentar a indignação do vizinho. Rimos ainda mais.

Se eu tivesse mais intimidade com Otávio teria pedido para assistir as cenas ao vivo. Eu pagaria ingresso!

No dia seguinte, Maquiavel encarnado em Otávio, mudou a experiência. Quando o sujeito se punha de pé, antes ainda de chegar perto da televisão, a imagem normalizava. Ele então sentava e a imagem sumia. Levantava de novo e a imagem voltava. Tentava então recuar pé ante pé, devagarzinho, em câmera lenta. Quando seu traseiro tocava o sofá, Otávio entrava em ação e a imagem novamente desaparecia. O requinte de crueldade era que Otávio fazia isso apenas durante os blocos do telejornal, permitindo que nos intervalos comerciais a imagem fosse nítida e clara.

Resultado: do terceiro bloco em diante o vizinho já assistia a TV de pé, sem fazer qualquer tentativa de sentar. Se ele olhasse para o sofá, Otávio dava uma triscada no botão e ele voltava ao bom comportamento.

A esta altura eu torcia por engarrafamentos durante a carona de volta do trabalho para poder desfrutar mais da história e rir de doer a barriga:

— Otávio, ele vai chamar um técnico para tentar consertar a TV — argumentei.

— Vai nada. A televisão funciona perfeitamente durante as novelas e os intervalos comerciais — rebateu Otávio, fazendo jus ao cinismo ao qual me referi.

— Vai acabar num hospício então! — arrematei, já saltando do carro no fim da carona e ansioso pelo dia seguinte.

Otávio manteve o vizinho de pé durante o telejornal por mais uns 3 dias. O infeliz, já conformado, sentava para descansar durante as propagandas e assim que retornava o noticiário, já se punha de pé, como um soldado ao comando da posição de “sentido”. Estava tão condicionado quanto o cachorro na famosa experiência de Pavlov.

Mas o endiabrado havia se apossado totalmente de Otávio. Deixou o vizinho achar que tudo havia se normalizado e por dois dias permitiu que o pobre coitado assistisse seu programa em paz. Após esta trégua, na realidade um breve cessar fogo com aparência de paz definitiva, voltou a atacar.

E aí passou de fase no jogo: resolveu chuviscar durante todo o primeiro bloco de notícias, independente das ações da pobre vítima. O vizinho tentou de tudo: levantou e sentou sem resultado, mexeu nos cabos atrás da TV, ligou e desligou no controle remoto, mas o chuvisco mostrou-se inabalável. Assim que começaram as propagandas, Otávio liberou a imagem. O sujeito, ensandecido, espatifou o controle remoto no chão e retirou-se da sala!

Otávio me contou o desenrolar deste dia e neste ponto da história parou a narrativa.

— E aí? O que você fez? — indaguei ansioso, querendo rir mais.

— Nada! Acabou ali.

— Sério?

— Parei, pois tudo tem um limite. Chegou num ponto que, se o sujeito descobre, o caso poderia acabar em morte: a minha…

Lamentei, mas ele tinha razão: era grande o risco da comédia virar tragédia!

Antonio Carlos Sarmento

 

25 comentários em “VIZINHO PERIGOSO”

  1. Muito bom!!! Tive algumas experiências com vizinhos que não esqueço:
    O da frente gostava de andar nu e eu precisava manter a minha cortina fechada.
    A de porta, bateu na minha casamata pedir emprestado, veja só, uma dose de uísque pois sua escola de samba do coração havia vencido o desfile e ela queria comemorar. Veja bem, não pediu gelo mas o uísque. Achei desaforo e gentilmente disse que não bebia.
    Beijão

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  2. Ja ri muito imaginando as cenas e como a gente arranja tempo e imaginação pra sacanear os outros.
    Quando eu era pequeno gostava de passar trote via telefone. Ria muito com as frases que eu dizia quando a pessoa respondia e eu replicava… Bom domingo e que Deus nos abençoe

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    1. Amigo Luigi,
      Também passei muito trote na infância.
      Naquele tempo não havia identificador de chamadas e aí era possível muitos trotes.
      Se você deu risadas, valeu a crônica.
      Grande abraço e uma maravilhosa semana ao amigo e sua família!

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  3. Pô amigo. Esse seu amigo foi sinistro. Ainda bem que não era meu vizinho.
    História interessante e surpreendente. Usou de muita imaginação. Parabéns.

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  4. Fui criado em uma casa no subúrbio, sem saudosismo mas, naquele tempo o vizinho era praticamente um parente.
    Evidentemente, que existiam os chatos e perigosos , mas a grande maioria eram de uma parceria incrível.
    Hoje dificilmente sabemos sequer o nome de quem mora , até mesmo do nosso andar,sobrenome? Nem pensar.
    A crônica de hoje ” coitado do vizinho” me trouxe essa lembrança da infância e juventude, porque existiam as brincadeiras também e nem sempre acabavam bem…
    Realmente, o seu amigo foi crue!.
    A crônica, como sempre, muito boa.
    E agradeço ao “vizinho perigoso”, embora cruel , extraí lembranças maravilhosas do meu tempo.
    Valeu Cacau!

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  5. Ei Cacau!
    As vezes cometemos erros que a maturidade nao explica. Lembro que, algumas vezes, ri ao assistir à queda de uma pessoa . Não fazia por maldade, até ajudava a levantar. Rindo. ..aumentando o constrangimento da vítima.
    Mas isso aconteceu, no máximo, até a adolescência.
    Otavio, nos seus 50 anos, fazia da privacidade do vizinho seu brinquedo cômico . Que faltou no seu curriculo de vida que não permitiu que conhecesse o respeito?
    Xô Otavios!! Xô violaçao!!
    Beijo, meu primo. Tenho certeza de que, hoje, você não acharia graça nesse tipo de diversão.

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    1. Querida prima,
      Obrigado por seu comentário. Sua opinião sempre me interessa muito.
      Esta história não passou de uma brincadeira e confesso que até hoje me diverte.
      Talvez a sensação que você teve seja semelhante a que sinto ao ver certas video-cassetadas na televisão: em geral acho engraçado, mas uma ou outra me traz um sentimento diferente, pois fico com pena da “vítima”.
      Abraços e desejo uma ótima semana!

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