O VOO DA GAIVOTA 

Eram 5 horas da tarde, meu horário preferido do dia. É mais ou menos quando começa a mudança do dia para a noite, a única que tenho oportunidade de sempre presenciar, já que a outra transição, da noite para o dia, é privilégio dos madrugadores ou dos que dormem mal, dentre os quais felizmente não me incluo.

Busquei a varanda do apartamento com um café em mãos à procura de inspiração para mais uma crônica. Sentei observando a paisagem e degustei o café como se ele fosse capaz de acender uma centelha criativa. Terminei com a xícara vazia e a mente idem.

Fiquei ali, olhando o céu e disfarçando para a inspiração não perceber minha ansiedade. Há muito tempo cheguei à conclusão que a criatividade é como a sorte: não respeita agenda. Só chega quando quer e quase sempre de modo inesperado.

Vasculhei o horizonte. Vi beleza. Montanha, lagoa, verde nas árvores e azul no céu. A obra de Deus é fabulosa e incomparável. Mas não sou poeta, apenas um simples cronista. Pensei ainda que, se eu fosse um pintor ali, estaria pronto o objeto da minha arte, mas aquela paisagem não me entregava uma história, um texto.

Já ia me retirando quando algo novo apareceu na cena. Era uma gaivota. Solitária. Sempre achei que andavam em grupo, mas aquela estava desgarrada. Deve ter deixado as outras por vontade própria, em busca de alguns momentos de isolamento, tal qual eu e meu café. Aparentava estar feliz, de bem consigo mesmo, fazendo seu próprio caminho e usufruindo a liberdade de estar só.

Lembrei que algumas vezes, no intervalo de almoço no escritório, eu dispensava sutilmente a companhia dos colegas e optava por almoçar sozinho. Passeava então pelas ruas, visitava uma livraria e encontrava prazer em ficar sem falar nem ouvir. É bom descansar um pouco os sentidos. Às vezes, também é bom descansar do grupo. Somos gregários, mas também solitários.

Voltemos a nossa personagem. A gaivota era o único animal que eu podia ver naquele cenário de natureza. Chegou não sei de onde e ficou ali, parada no ar, sem bater as asas, apenas cortando o vento que a sustentava. Parecia querer ser observada e foi isso que fiz. Uma aerodinâmica divina permitia a ela voar sem sair do lugar, sem esforço, só ficando na posição certa e recebendo o sopro do mar. Que coisa fantástica!

Não sei se para ela era uma parada para descanso, talvez para se exibir ou se estava apreciando a paisagem daquele ângulo privilegiado e se deliciando com o flutuar na imensidão do céu. Para mim ela estava surfando o vento.

Recordei que há alguns anos, já com cinco décadas de vida, pensei em aprender a surfar. Eu queria experimentar a sensação de deslizar sobre as águas, sem motor, levado naturalmente pelo movimento do mar e sem uma rota estabelecida, livre de calçadas e ruas. Consultei um amigo surfista, bem mais jovem, que me desanimou:

— Na sua idade não dá mais…

— Não estou tão velho assim. Vejo pessoas da minha idade surfando. Poucos, mas existem — relutei.

 — Estes já surfam há muitos anos. Possuem o equilíbrio e os músculos certos estão fortalecidos. Começar agora não dá — sentenciou meu amigo.

Achei que ele tinha razão. Desisti, ou melhor, nem tentei. Ou melhor não, ou pior… Se pudesse voltar no tempo, tentaria.

Agora vem essa linda gaivota surfar bem diante da minha varanda, esbanjando destreza, realizando movimentos perfeitos e equilibrando-se em cima de nada. Ela deve ter pressentido que um dia eu tive este plano e não realizei. Veio aqui para me lembrar que desistir sem tentar é patético. Sim, gaivota, eu entendi: é uma lição que vem do passado e serve para o futuro.

Subitamente, ela fez um movimento lateral, deu um rasante e partiu veloz, batendo as asas em busca de seu abrigo para a noite que se aproximava. Vai minha amiga. Você completou o meu dia, trouxe beleza e me fez pensar na vida.

Veio aqui porque também sabia que eu ia escrever e desejou ser protagonista. Você me encantou e então está aí, minha amiga gaivota: a crônica é sua!

Você voa nas asas, eu fico com o que me resta: o voo da imaginação!

Antonio Carlos Sarmento

28 comentários em “O VOO DA GAIVOTA ”

  1. Hoje voce estava mais poeta que cronista… Mas na sua crônica/poesia de hoje, descobri algo do qual divergimos: Não gosto de almoçar ou jantar, sozinho. Nessas ocasiões como rapido e rapidamente retorno a meus afazeres sem gozar o que mais aprecio, comer, conversando com alguem. Não sou muito dado a solidão, ela me entristece um pouco. Adoro silêncio e estar só, quando oro, e ai não vale porque minha companhia é o Todo Poderoso. E o faço com prazer, pelo menos 2 vezes por dia: quando acordo e antes de dormir. Portanto, como estou indo dormir, irei fazer minhas orações e incluir meu dileto cronista e sua familia. Bom domingo e Deus nos abençoe.

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    1. Caro Luigi,
      Minha mulher, ao ler a prévia da crônica, disse exatamente esta frase inicial do seu comentário. Mas quem sou eu para me arriscar na poesia…
      Quanto à nossa “divergência” acho que podemos conviver com ela em harmonia, não é mesmo?
      Agradeço ao amigo pelas orações e saiba que aí encontramos mais uma convergência, pois também costumo rezar antes de levantar pela manhã e ao deitar no final do dia. Esteja certo de que retribuirei suas orações.
      Grande abraço!

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  2. 5 horas da tarde tb era o horário preferido de Glorinha e tb é da Soninha. Rsrs… quem herda, não furta. Eu gosto mais das manhãs. 🙂

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  3. Caro Amigo, Muito bom dia, Vi na sua gaivota, um personagem com o qual tomei contato, salvo engano, em janeiro de 1972: Fernão Capelo Gaivota. Puxa vida, fazem quase 50 anos, quanto alegria você me proporcionou, trazendo essa recordação . . . Muito agradecido. Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Gui, ao Jean e demais familiares

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    1. Grande JH,
      Muito bem lembrada a obra citada.
      Ao escrever não me ocorreu, mas teria sido uma ótima recordação.
      Fico contente de ter lhe trazido uma alegria com a leitura.
      Grande abraço, meu caro amigo e recomendações à Sueli, Luizinho e Junior, além de um carinhoso beijo na Catarina!

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  4. Que beleza de crônica!
    Quantas oportunidades deixamos passar sem tentar? Ouvimos alguém dizer: Ah! Para você não dá! Está sonhando?
    Penso hoje que devemos ser “amigo do NÃO.”
    Ou seja, quando queremos algo devemos buscar a forma de conseguir, porque o “não” nós já temos.
    O máximo que acontecerá é o que já temos, o NÃO!
    E quantas oportunidades perdemos por ter medo do não.
    Querido Cacau, viajei nas asas da gaivota e na minha imaginação.
    Obrigado por me fazer surfar nessa onda, que também deixei passar por não ser ,na época, “amigo do NÃO.”
    Parabéns!
    Ainda estou vendo a imagem da gaivota, perfeito.
    Bjs

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    1. Amigo Chico,
      Viajei no seu comentário.
      Acho que você traduziu muito bem o que sentiu e fico feliz que tenha gostado da crônica e dado asas à imaginação!
      De fato, o “não” já temos então devemos tentar fazer aquilo que sonhamos e não deixar que desestímulos nos paralisem.
      Um beijo meu amigo querido!

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  5. Prezado Antonio Carlos:
    De minha parte, consigo voar nas belas asas dos magníficos artigos, que bem retratam a natureza.
    Sds.
    Carlos Vieira Reis

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  6. Desistir sem tentar, jamais !!!
    Essa é a lição de hoje das crônicas desse irmão mestre da vida!!!
    Surfei na descrição perfeita dessa imagem ,me deleitando nessa hora em que a noite 🌙 abraça o dia tão gentilmente ,trazendo o escurinho!!
    Pra completar esse café ☕ poético só uma torta de banana 🍌Évora!! Rsrs que delicia esse momento!!!!

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    1. Minha irmã,
      Este nosso horário favorito me trouxe alguma inspiração, que fez você e alguns outros leitores acharem que a crônica ficou com um tom poético. Isto muito me alegra!
      Se você surfou e deleitou-se já valeu a pena escrever. Fico devendo a torta de banana…
      Beijos

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  7. A criatividade é como a sorte. Não respeita agenda…. Gostei muito dessa observação logo no início. Ela continuou não vindo mas você mesmo assim acabou escrevendo essa bela cronica.
    Concluo que você não precisa de inspiração, se é esse o nome, pois ela já está em você e vem não respeitando agenda. Viva a gaivota e um parabéns de quero mais para o próximo domingo. Abrs amigo.

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    1. Querido amigo,
      Devido à viagem, achei que este domingo você nem conseguiria ler a crônica. Felizmente arranjou um tempo, não só para ler como ainda comentar. Obrigado!
      Suas palavras gentis servem de incentivo para meus escritos. Até domingo, meu amigo!
      Abraços

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  8. Tem um ditado muito conhecido e não mais tão em uso : aguas passadas não movem moinhos. Mais servem para refletir sobre o que se perdeu nas aguas da vida. Isso é Uma lição do passado que serve para o futuro. Aprendemos a cada dia com cada momento com o presente que já é passado, logo o estaremos no futuro que virá presente
    Muito boa crônica para devagar a mente.

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  9. Muito boa esta crônica!! Realmente ficar observando a natureza é exatamente o que mais gosto de fazer em Teresópolis, olhando na minha cadeira preferida a natureza.

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  10. Amigo querido, quantas coisas deixamos de tentar por medo. Minha avó, mulher à frente de seu tempo, dizia: Não diga nunca – Ah que saudade dos beijos que não dei!! Linda crônica!! Perfeita!!

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    1. Amiga Lucia,
      Você me fez lembrar também uma frase que diz ser lamentável arrepender-se do que não se fez. Talvez o pior arrependimento…
      Que bom ter gostado da crônica. Fico muito feliz!
      Beijos e boa semana!

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  11. Meu bom amigo e irmão Antônio Carlos..
    Título: O VOO DA GAIVOTA

    “Recordei que há alguns anos, já com cinco décadas de vida, pensei em aprender a surfar. Eu queria experimentar a sensação de deslizar sobre as águas, sem motor, levado naturalmente pelo movimento do mar e sem uma rota estabelecida, livre de calçadas e ruas. Consultei um amigo surfista, bem mais jovem, que me desanimou:
    — Na sua idade não dá mais…”

    Meu comentário ao amigo Antônio Carlos.

    Eu discordo dessa opinião de que não dá mais para você.
    Uma mente que percebe a leveza, a beleza e a sensação de um deslizar sobe as águas, fico a acreditar que, paira sobre o seu corpo um espirito jovem, de muita luz, e que busca na água a invocação do Espirito Santo para as suas realizações.

    É o que penso sobre o esse jovem e bom amigo Antônio Carlos.
    Obrigado pelos envios das suas crônicas, ainda mais por permitir sobre a sua belíssima escrita eu comentar da minha satisfação.
    EXCCELENTE, GOSTEI MUITO.

    Um fraterno abraço na família.

    Oslúzio Fonseca

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    1. Meu querido irmão e amigo Oslúzio,
      Você talvez não imagine como fico feliz com seus comentários e por saber que sempre acompanha as crônicas.
      É muito bom ter você como leitor assíduo e receber suas palavras sempre gentis e incentivadoras.
      Um grande abraço e beijos nas suas meninas!
      Fiquem com Deus!

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  12. Ei , Cacau!
    Realmente essa ave é mesmo inspiradora: de Richard Bach (Fernão Capelo Gaivota) ao nosso querido cronista, ambos ficaram admirados com o pássaro.
    Sua descriçao me fez lembrar de uma tarde, sentada na varanda, em Macaé,
    ouvindo tio Alfredo apresentando as gaivotas que dançavam à nossa frente , na praia. Tambem se rendeu aos encantos dela.
    Pena que desistiu de seu desejo, meu primo. Teria valido a pena manter o espirito obstinado que Churchill inspirou, tão aclamado na crônica passada, e aprendido a surfar, mesmo que timidamente. Com certeza, teria vivido momentos de grande prazer que nos renderiam ótimas crônicas.
    Valeu toda a poesia do texto!
    Carinhoso abraço

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    1. Minha querida prima Gena,
      Interessante como meu pai deixou boas lembranças em você. Me lembro que sempre falava sobre suas qualidades e tinha um carinho especial por esta sobrinha, talvez a preferida…
      Realmente a desistência foi um erro que espero não mais cometer. Hoje me arrisco neste ofício de cronista, um desejo adiado mas ao qual não renunciei. E me sinto feliz!
      Beijos e uma ótima semana!

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  13. Excelente crônica. Discordo apenas com “Você voa nas asas, eu fico com o que me resta: o voo da imaginação!
    Você ficou também com o ensinamento de não desistir mais de seus sonhos. O mais importante!

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