BANHO DE PISCINA

Era uma terça-feira em pleno verão de 40 graus no Rio de Janeiro. Minha rigorosa agenda de aposentado apontava para a oportunidade de frequentar a piscina do meu condomínio. Às terças-feiras ficava quase um parque aquático inteiro só para mim, sem aglomeração nem barulho de conversas de adultos ou brincadeiras de crianças.

Munido do equipamento básico — sunga, boné e um bom livro — desci para desfrutar das delícias do sol e dos refrescantes mergulhos na água azulzinha, tratada no dia anterior, dedicado a manutenção e limpeza.

Que maravilha aqueles momentos de silêncio e paz para uma boa leitura ao sol, com duchas e imersões nos intervalos. Era uma daquelas circunstâncias ideais para estar sozinho com um livro. Se eu pudesse escolher, leria assim todos os dias.

Normalmente não havia nenhum outro morador, apenas o guardião da piscina, que por aqui é uma obrigação legal. Há alguns anos eu já vinha observando aquele rapaz, sempre sentado, sem atividade por horas a fio. Eu mergulhava na piscina, ele no celular.

Sempre que o via, passava em minha cabeça que aquilo era descabido. Uma pessoa jovem, cheia de energia, ali parada o dia todo, improdutivo, quase um inútil. Devia ser uma profissão muito frustrante, passar o dia sem realizar nada. Mas, diante de uma imposição da lei, não havia alternativa.

Fazia já uma hora que eu estava na piscina quando chegou um casal com um garotinho de uns 4 anos. Logo pensei: acabou o meu sossego. Uma andorinha só não faz verão, mas uma criança só já faz confusão.

Porém, me enganei. O garoto era bem tranquilo. Logo entrou na piscina infantil com alguns brinquedinhos flutuantes e se distraía sozinho, A mãe virou de costas, posicionando a cadeira em direção ao sol e o pai escondeu-se atrás de um jornal aberto. Reinava ainda a quietude e, portanto, voltei feliz ao meu livro.

Passou-se uma meia hora.

De repente ouvi o som de um mergulho e levantei os olhos. Era o guarda vidas que havia se atirado na piscina dos adultos para salvar o garotinho que silenciosamente havia caído na água em trecho profundo.

O pai deu um grito e corremos todos em direção ao local. O guarda vidas, de dentro da piscina, estendeu os braços e entregou o garoto ao pai, enquanto a mãe ainda se aproximava. O menino apenas tossia e chorava, mas estava bem, pois o resgate foi muito rápido.

Ficaram os três abalados e abraçados. A mãe agora chorava mais que a criança. A iminência da tragédia os colocou sob forte emoção. Os pais haviam ficado distraídos e o garoto ficou sem a supervisão deles. Não fosse o guarda vidas, não estivesse ele em seu posto, não houvesse a atenção dele ao que acontecia, não agisse na hora certa e de modo efetivo, quanto sofrimento haveria. Uma vida perdida e duas destroçadas.

O afogado agora era afagado. Se recuperava aos poucos, ainda soluçando. Passado algum tempo, o pai parcialmente recomposto recolheu as coisas e se retiraram, ainda muito abatidos. Na saída, um breve agradecimento ao guardião que apenas assentiu com a cabeça.

Que lição!

Como fui rápido nas ocasiões anteriores em condenar o trabalho daquele jovem, em achar despropositada a determinação da lei. Somente aquele feito já justificava a função dele no passado, no presente e no futuro. A lei estava certa. O jovem também. O que pode ser mais importante que salvar uma vida?

Não sei o salário dele, mas tenho certeza de que é muito pouco para recompensar o que foi realizado. Onde imaginei moleza o que havia era nobreza. Não era um guardião, mas um salvador.

Fiquei pensando como temos dificuldade em não julgar. Como somos dados a fazer avaliações precipitadas, sem conhecimento de causa, superficiais e recheada de críticas. Como é grande o nosso apetite por formar opinião sobre tudo e sobre todos, sem lembrar que o maior risco de julgar é o de ser injusto. E este risco é altíssimo.

Aprendi muito neste banho de piscina que a vida me ofereceu. Alguns dias depois, li uma frase de Krishnamurti que completou o ensinamento:

A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar!

Antonio Carlos Sarmento

28 comentários em “BANHO DE PISCINA”

  1. A crônica de hoje me levou a refletir sobre “julgar”. Todos emitimos julgamentos sobre tudo e todos. Temos sempre uma opinião carregada de julgamento sobre todas as coisas. Tenho ha algum tempo me policiado e preocupado com isso porque meu grande mestre e salvador me ensinou a: não julgar pra não ser julgado e que eu serei julgado com a mesma dureza com que eu julgo. Mas, como é dificil, Sarmento, livrarmo-nos de enraizados habitos. Que Deus nos ajude e oriente sempre. Boa semana e que Deus nos abençoe.

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    1. Caro amigo Luigi,
      De fato é muito difícil nos abstermos de julgar os outros.
      Mas vamos nos conscientizando e buscando melhorar neste aspecto, não é? O importante é estarmos no caminho, mesmo tropeçando e errando a toda hora.
      Grande abraço, meu caro e uma ótima semana a você e toda a sua família!

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  2. Prezado Antonio Carlos:
    Prestei muita atenção no seu artigo. De fato, a presença de um guarda-vidas, nas piscinas, é muito importante. Porém, gostaria de saber se o legislador, quando elaborou o projeto de lei, também pensou nas piscinas residenciais, como a minha. Acho que não chegou a esse detalhe.
    Realmente, a frase é sabia, pois é muito relevante na vida saber observar sem julgar.
    Sds. do amigo e leitor,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo e assíduo leitor Carlos,
      Sua visão jurídica já chamou a atenção para outro aspecto da lei.
      Desejo que desfrute muito da sua piscina, com toda a segurança, neste verão que de agora em diante vem quente!
      Grande abraço, meu caro amigo e desejo que tenha uma ótima semana junto à sua família!

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  3. Guimo tem um casal amigo que perdeu o caçula aos 3 anos em uma piscina residencial. Só uns minutinhos de desatenção são suficientes para a diversão virar tragédia. Excelente crônica, a reflexão sobre o julgar nunca é demais. Também fico me policiando para não julgar. Parabéns!

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    1. Cris,
      Também tenho um triste caso destes na família. É uma tragédia…
      Quanto ao não julgar, exige de fato um policiamento permanente. E mesmo assim, é difícil não falharmos nisso.
      Beijos e obrigado pelo comentário. Manda um grande abraço ao meu amigo Guimo!

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  4. Ah se pudéssemos viver sem fazer julgamentos, principalmente das outras pessoas, seria ótimo! Mas infelizmente o nosso cérebro funciona ao contrário, basta olhar para o outro e involuntariamente fazendo sempre um julgamento e normalmente de crítica!
    Mas segue a vida e os ensinamentos de quase sempre não seguimos! Abraços meu amigo.

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    1. Caríssimo amigo Aylton,
      Muito feliz de receber seu comentário. É mesmo uma luta conseguirmos não julgar os outros: falhamos nisso muitas vezes ou quase o tempo todo. Mas não podemos desistir e temos que continuar buscando este caminho.
      Grande abraço meu amigo.
      Uma ótima semana a você, Regínia e toda a família!

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  5. Verdade. É um exercício constante observar os fatos e as pessoas sem emitir opinião ou analisá-las.

    E no caso da medidas/equipamentos de segurança, sempre que não aparecem, é pq estão cumprindo sua função. É uma função ingrata msm.

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  6. Nós temos essa capacidade mesmo de pré-julgamento, insensibilidade e ignorância da importância em certas situações.
    Devemos focar mais atentos ao que acontece ao nosso redor e aos profissionais que estão no seu dever.
    As vezes não parece, mas profissionais de segurança sempre estão atentos.

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  7. Caro Amigo Sarmento, Muito boa noite, Sempre muito oportunas as observações contidas em suas crônicas. Eu gosto da leveza que as suas crônicas contêm e, hoje destaco a frase: O afogado agora era afagado. Achei fantástica esta frase. Por que? Não importa. Recomendações a toda a família, em especial à Sônia.

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    1. Amigo JH,
      Interessante você destacar esta frase em que faço um jogo com as palavras “afogado” e “afagado”. Um dia me ocorreu esta semelhança de grafia e diversidade de sentido e anotei para, em alguma oportunidade, usar em uma crônica. Chegou a hora.
      Fico contente que tenha lhe chamado a atenção e apreciado.
      Uma maravilhosa semana para você, Sueli, Catarina e toda a sua amada família!

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  8. Foi uma verdadeira lição!
    Toda e qualquer profissão tem o seu valor.
    Temos que fazer o exercício diário de observar e não julgar mas não é fácil
    Muita oração e exame de consciência
    Ótima crônica, como sempre!
    Abraços e boa semana.

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    1. Caro amigo Newton,
      Muito obrigado por seu comentário, meu irmão.
      É isso mesmo. Temos que tentar viver sem julgar tudo e todos. E para isso precisamos de oração e conscientização.
      Grande abraço a você e Nuri!
      Uma ótima semana!

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  9. Muitas vezes o olhar engana-nos…e a mente, que é tramada, vai atrás dele e faz deduções erradas. O importante é que haja humildade para reconhecermos onde erramos e tudo fazermos para ir aprendendo com as situações.
    E ainda bem que tudo acabou bem com essa criança!

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    1. Pois é Dulce,
      Há uma luta constante contra o impulso natural de julgar tudo e todos. É um exercício de racionalidade.
      Felizmente tudo acabou bem a o episódio deixou muitas lições a todos os envolvidos.
      Grato por comentar.
      Saudações!

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  10. Meu querido primo,
    É verdade: estamos sempre preparados para julgar- cada um com um olhar: uns de preocupação, outros de acusação ; às vezes de compreensão e outras de encantamento
    Cada um inspirado pelos próprios valores e paradigmas.
    Mas, com certeza, ninguém julga a si com o mesmo rigor que julga os outros .
    Um texto rico em trocadilhos e profundo em reflexão . Parabéns!
    Com carinho.

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    1. Gena,
      Fico feliz que tenha apreciado o texto e feito importantes reflexões.
      Não julgar é um esforço constante, pois parece que temos mesmo esta tendência.
      No fundo, talvez seja mesmo verdade que toda a crítica é uma forma de autoelogio…
      Obrigado pela sua constante presença por aqui, minha prima querida!
      Beijos

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  11. Que belo texto Quanto! Quanto a atenção para evitar tragédias, vale não apenas para piscinas, mas também para outras atividades da vida cotidiana. Sobre julgar as atitudes alheias, se não for possível evitar a crítica automática às outras pessoas, que ao menos estejamos prontos para agir com cordialidade e também para reavaliarmos nossas avaliações conforme novas informações venham à tona.

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