ALMOÇO DE FIM DE ANO

Uma das coisas que mais me agrada depois que parei de trabalhar é, ao chegar esta época de final de ano, não ter mais que participar do chamado almoço de confraternização da empresa. Certamente uma invenção de Lúcifer!

Normalmente é numa churrascaria rodízio, lugar concebido e arquitetado pelo mesmo sujeito ao qual acabo de me referir. Só ele mesmo para engendrar uma combinação de famintos em quantidade absurda, mais um exército de garçons enlouquecidos armados com espetos sangrentos, além de milhares de pratinhos de acompanhamentos gordurosos e frios, tudo isso regado a bebidas quentes servidas aos trancos e barrancos. Para completar, como requinte de crueldade, o maldito ainda incluiu música ao vivo. Não há exorcista que dê jeito!

Para não ficar nas generalidades passo a contar um evento deste tipo ao qual compareci, faz já longos e felizes anos.

Chegamos à porta da churrascaria, eu e alguns colegas, um pouco após o horário marcado. Entramos em busca de encontrar o nosso grupo em meio à multidão. As mesas estavam colocadas tão próximas umas das outras que era preciso passar de lado, esbarrando a barriga ou partes que prefiro não mencionar, nas cabeças e ombros alheios. As vítimas, já sentadas, estavam sendo submetidas a tantos sofrimentos piores, que sequer se queixavam…

Com alguma dificuldade chegamos à nossa mesa. Mais parecia uma passarela longa e estreita, que iniciava perto da cozinha e estendia-se por todo o comprimento da churrascaria. Este tipo de arranjo é ótimo para confraternização: você só consegue falar com a pessoa em frente ou ao lado, o que significa que, independentemente do número de pessoas presentes, você só vai “confraternizar” com 3 colegas. Sendo assim, melhor seria marcar o almoço em outro local, silencioso e tranquilo, reservando apenas uma mesa de quatro pessoas e, aí sim, desfrutar da companhia e da comida. Nunca tive coragem de dar esta ideia ridícula.

Nos indicaram as cadeiras disponíveis e acabei sentando entre dois desses colegas com os quais cheguei, ou seja, continuei interagindo com as mesmas pessoas…

A gritaria era inacreditável. Parecia a arquibancada do Maracanã em jogo lotado no momento da entrada dos times. O calor idem. Devido àquela invasão, o ar-condicionado não dava vazão.

Quando eu ainda terminava de me acomodar, um garçom aproximou-se por trás, cravou um enorme espeto no tampo da mesa próximo ao meu prato e proclamou:

— Costela!

Conferi para ver se as minhas estavam no local e olhei para ele. Era um sujeito mal-humorado, suado, a camisa branca salpicada de respingos de carne e exalando impaciência por todos os poros. O pobre coitado parecia, como na história bíblica, encarregado de alimentar cinco mil homens com cinco pães.

— Vai? — inquiriu com a suavidade de um rinoceronte.

Neguei com um leve movimento de cabeça e ele passou adiante, indo esgrimir seu espeto na direção de outro sofrente.

Respirei fundo. Eu não podia ser o único chato. Era um almoço de confraternização. O congraçamento com os colegas era impossível, mas eu precisava pelo menos salvar o almoço. Quem está na guerra tem que dar tiro, pensei. Fui aceitando aqui e ali um pedaço de carne e garimpando algum acompanhamento razoável naqueles abomináveis pratinhos espalhados sobre a mesa. Sem falar no tormento de ter que desgrudar, a toda hora, a desagradável toalha de papel projetada para aderir aos antebraços — mais uma obra daquele que já citei no início…

Tudo ia bem — bem tumultuado — até que, passados uns dez minutos, houve um desentendimento numa mesa próxima à nossa. Era só o que faltava. Um comensal pareceu dirigir olhares furtivos à namorada de outro, que percebeu e levantou-se aos gritos desafiando aquele que cobiçava a mulher do próximo — note o leitor que é minha segunda referência bíblica nesta crônica.

Foi uma gritaria ainda maior, com troca de ofensas, palavrões irreproduzíveis e facas de churrasco sendo apontadas como armas de alta periculosidade. A celeuma só terminou quando o casal ofendido resolveu, a contragosto, ir embora. Quase dei uma desculpa de que iria acompanhá-los para cuidar de que não houvesse mais problemas, mas logo desisti, pois um sujeito ciumento é imprevisível e perigoso.

Permaneci ali, almoçando pouco e confraternizando menos ainda. Notei então a aproximação de um espadachim com seu longo espeto em mãos. Ele usava uma técnica peculiar: vinha percorrendo a mesa com agilidade, cravando a ponta do espeto ao lado de cada prato, numa sucessão cadenciada e veloz. Desta forma, chamava a atenção do cliente que logo aceitava ou recusava a oferta.

Já disposto a não aceitar, tentei uma conversa com meu vizinho do lado esquerdo. De repente, ouvi um grito do meu colega da direita, melhor dizendo, que estava à minha direita — nestes tempos de exacerbação política temos que tomar muito cuidado com as palavras.

O leitor pode não acreditar, mas eu juro sobre a Bíblia — terceira referência — que foi exatamente o que ocorreu: o espadachim cravou a ponta do espeto na mão do meu desafortunado vizinho!

Por sorte, o golpe foi aplicado na pele que liga o indicador ao polegar. O esgrimista derramou-se em desculpas, enquanto meu amigo levantava indignado, pressionando um guardanapo de papel sobre o ferimento para conter o sangue. Pouca gente notou, já que carne sangrando naquele ambiente era a coisa mais comum.

Aproveitei a oportunidade para ir embora junto com ele em direção ao posto médico da empresa.

Ao sair, jurei a mim mesmo nunca mais participar de tal evento.

Mas tem razão Machado de Assis quando diz que esquecer é uma necessidade. No ano seguinte lá estava eu novamente no almoço de conflagração, digo, de confraternização…

Antonio Carlos Sarmento

37 comentários em “ALMOÇO DE FIM DE ANO”

  1. Quem já não passou por essa experiência?
    Eu, também tenho alguns relatos muito interessantes… eu, como era fornecedor de algumas empresas ainda era “obrigado” a ir noutros desse tipo…meu Deus!
    E foram anos e anos….

    Hoje em dia, passada essa época da minha vida, nem a Pau Juvenal, rsrsrsrs
    Essa é uma saudade que não tenho….

    Muito boa Cacau!
    Detalhes perfeitos que me fizeram ver as cenas…
    Bj

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  2. Querido amigo.
    Inicialmente desculpas por não comentar a última crônica sobre o julgamento do guarda vidas que foi muito boa. Mas desculpe novamente essa de hoje está demais….
    Teve de tudo. Os comentários exatos sobre a existência do evento como os detalhes hilários que o momento ensejou foram deliciosos… Ri do começo ao fim. Compareci por força da minha vida profissional a inúmeros eventos desses tipo e você conseguiu rememorá-los com muita eficiência. Até as comparações bíblicas foram excelentes. Se essa foi a última crônica do ano você fechou com chave de ouro. Foi das melhores. Parabéns. Grande abraço que gole vou a uma churrascaria com a Jaciara por solidariedade….

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    1. Amigo Nei,
      Me divirto escrevendo a crônica e depois me divirto novamente lendo seus comentários. duvido que tenha a Santa Jaciara a um rodízio desses… hahaha
      Mas não se sinta aliviado pois esta não foi a última do ano: tem ainda mais uma antes do recesso de Natal e Ano Novo. Aguarde!
      Beijos a vocês e que tenham uma ótima semana!

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  3. Caro Antonio Carlos:

    Também, tenho algumas experiências bem desagradáveis.

    Pior é que, nessas confraternizações (ou conflagrações), depois dos comensais ingerir algumas doses, passa-se a conhecer melhor a sua conduta social, que certamente é das mais inoportunas, uma vez que o ingrediente etílico é capaz de produzir situações inusitadas e reveladoras.

    Parabéns pelo seu ótimo artigo.

    Sds. do seu admirador e amigo,

    Carlos Vieira Reis

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  4. Realmente estas confraternizações de final de ano é uma tortura! Mas você apresentou-a de um modo cômico! Excelente texto! Parabéns!

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  5. Não sei se rio ou choro. Tudo de bom este texto. Você descreveu exatamente todo sentimento meu naqueles almoços, e/ou outros eventos comemorativos da empresa. Durante algum tempo chegava, fazia social e me retirava a francesa antes que o álcool subisse à cabeça de muitos. Nos últimos anos de trabalho, me neguei a participar de qualquer que fosse porque não via sentido algum, nem social. Percebi agora que outros, em silêncio, tinham o mesmo sentimento. Que bom. Seu texto alegrou meu dia.

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  6. Agora que não trabalho mais, minhas confraternizações são com pequenos grupos seletos de amigos que fiz. São várias mas muito melhores do que as da época de trabalho as quais invariavelmente eram iguais a brilhantemente descrita. Beijão

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  7. Kkkkkkkk ri muito da história, ou melhor, do conto de terror! Sarmento eu tenho uma dificuldade em restaurantes, notadamente no nosso Rio de Janeiro : as pessoas falam MUITO ALTO E RIEM COMO UNS LOUCOS! E eu prezo muito o silêncio à mesa. Não silêncio absoluto, adoro conversar durante as refeições mas num tom mais baixo. E aqueles pais que para não serem pais, deixam seus filhos pequenos, batucando na mesa usando os garfos e facas…. Sou assumidamente neurótico com isso. Mais algo que temos em comum. Hora da refeição é um momento sagrado, diria meu pai. Bom domingo e que Deus nos abençoe.

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    1. Amigo Luigi,
      De fato, este é mais um aspecto que temos em comum. Também acho o momento da refeição muito especial, que precisa de paz. Sabe que quando recebo amigos para um jantar aqui em casa, na hora da refeição desligo até a música e, aí sim, podemos compartilhar o jantar com alegria e tranquilidade: como você bem disse, um momento sagrado!
      Uma ótima semana a você e todos os seus! Fiquem com Deus!

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  8. Meu Deus !!! Essa visão do inferno eu tive assim que me casei! Nunca tinha ido a uma confraternização de trabalho do marido. Foi também numa churrascaria. Além de tudo que vc narrou , as secretárias se exibiam com tanta intimidade que me fazia imaginar o dia a dia . Desde aí nunca mais fiz parte dessa P…

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  9. Eu também não gostava desses almoços de confraternização.
    Era muita confusão e impossível confraternizar.
    Me diverti com a crônica e as lembranças da minha época.
    Abraços.

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    1. Newton,
      Até peço desculpas por lhe trazer este tipo de lembrança… hahahaha
      Parece que quase todos da nossa geração passaram por isto.
      Fico contente que tenha se divertido!!
      Um grande abraço a você e Nuri e uma ótima semana!

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  10. Meu prezado amigo e irmão Antônio Carlos.
    Ao finalizar a leitura da crônica fico imaginando a sua repulsa qto aos fatos de violência narrados, são lamentáveis isso ainda existir em uma sociedade. Parabéns pelo texto.
    Oslúzio Fonseca

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  11. Confraternização é encontro de almas : mesmo sentimento, mesmo interesse, mesmo foco.
    Como um ser fino, elegante, de bom gosto e sensível como nosso querido cronista poderia se envolver num clima de comunhão nesses moldes? Totalmente dissonante !
    Só de imaginar, já se deseja sair correndo do ambiente.
    Em compensação, ofereço a você e a sua família um grande abraço de Natal, com o desejo de que todas as promessas contidas na vinda do Salvador sejam recebidas e cumpridas em seu lar.
    Beijo

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    1. Querida prima,
      Vou querer este abraço pessoalmente na sua vinda ao Rio, se não me engano no dia 21, certo?
      Muito obrigado pelo comentário fino, elegante, de bom gosto e sensível!!! desculpe o plágio…
      Beijos!

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    1. Oi Lucia,
      Respondo atrasado seu comentário pois houve uma falha aqui no aplicativo.
      Que bom ter se divertido com a crônica. Quase todos nós já passamos por isso, não é?
      Passado um tempo acaba até sendo engraçado.
      Beijos

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  12. Como atrasei a minha leitura, agora tenho o prazer de curtir algumas crônicas. Iniciando pela mais antiga, saboriei esse churrasco de confraternização e me diverti muito, relembrando também os meus encontros com Lucifer! 😂

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  13. Que tortura!! Graças a Deus eu não como carne…rsrssss. E como já trabalhamos na mesma empresa, não participei dessa solenidade. rsrsss Feliz Ano Novo!!

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