IMPROVISO

Mais vale planejar que improvisar. Via de regra, algo planejado, pensado previamente, mesmo se não executado totalmente, tende a trazer melhores resultados.

Claro que a imprevisibilidade da vida exige também a nossa capacidade de improvisar. Mesmo nestas circunstâncias, se antes nos dedicamos a planejar, ficamos mais aptos para improvisar quando desejado, necessário ou inevitável.

Não obstante, algumas vezes encontramos um sabor especial em algo improvisado. Acabo de me lembrar, por exemplo, que certa vez, morando no Rio Grande do Sul, fui com minha mulher ao apartamento de um casal amigo para uns drinques antes de sairmos para jantar.

Eles moravam numa simpática cobertura e sentamos no terraço naquela agradável noite de primavera. Céu estrelado sobre nós, conversa boa do tipo que a gente faz trocas, ouve e fala, ri e faz rir, recebe e dá. Ficamos ali, os dois casais, copos enchendo e vontade de sair esvaziando.

A coisa estava tão boa que meu amigo acabou propondo ficarmos em sua casa e improvisarmos um churrasco, sugestão imediatamente aceita. Claro, a gente não sai para jantar com amigos por causa da comida e sim pela companhia e bons momentos.

A mulher dele logo se preocupou com um pequeno detalhe: se tinham carne… Ele foi para a cozinha e voltou com a notícia positiva. Havia um corte de picanha sob medida, embora estivesse congelado e fosse impossível colocá-la na brasa naquele estado petrificado.

Improviso normalmente gera mais improviso. Meu amigo vestiu nosso duvidoso jantar num saco plástico e colocou-o sob a torneira do tanque para descongelar. Aí foi a hora dos palpites:

— Não. Assim não vai dar certo. Coloca um pouco no micro-ondas.

— Põe na torneira com água quente. Desse jeito vai levar uma vida. Vamos morrer de fome.

— Tira do plástico e põe um pouco no forno aquecido. Após uma meia hora vai estar no ponto pra churrasqueira.

Enfim, os especialistas não se cansavam de opinar e sugerir. O apetite, aguçado pelos drinques, estimulava a imaginação.

Meu amigo, mais experiente e melhor churrasqueiro, manteve-se fiel à sua primeira escolha. De vez em quando mudava a posição da carne embaixo da água corrente. Ia virando a peça e experimentando a maciez com a ponta do dedo indicador. Neste mexe e remexe notei que a água acabava por penetrar pelo saco plástico mal fechado e a carne, além de descongelada, estava sendo também lavada. Tudo certo para dar errado…

Após esta etapa, a pobre e sacrificada picanha foi para a brasa. Ao ficar pronta, nosso churrasqueiro provou, não disse uma palavra nem esboçou reação. Apenas trouxe para a mesa sob os olhares desconfiados de todos nós. A mais desconfiada era a própria esposa.

Pois bem, a picanha estava deliciosa, uma das melhores que já comi. Era o tal sabor especial do improviso, mas que aconteceu a partir de algo planejado, tal como um saboroso desvio do texto de um ator de teatro.

Volto a ideia de que improvisar como regra é imprudência. Foi o que aconteceu em outra passagem que passo a contar, novamente envolvendo um casal amigo.

Quando ainda recém-casados, fomos morar em um prédio de pequenos apartamentos no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Pelas características do edifício ali moravam muitos casais de jovens, cheios de vida e vazios de dinheiro.

Fizemos uma amizade muito especial com um deles e estávamos sempre juntos. Certa vez, em uma quinta-feira, véspera de feriado, nos reunimos para fazer um lanche. Na ocasião, comentei sobre as belezas da cidade de Penedo, onde havíamos estado há pouco tempo. O casal mostrou-se  interessado, pediu dicas e quis saber sobre passeios e restaurantes. Ficamos juntos até umas 11 da noite.

No dia seguinte, o feriado da sexta-feira, liguei para eles — só telefone fixo naquela época, caro leitor — para convidá-los à um programa. Não atenderam e então deixei recado na secretária eletrônica, atualmente já falecida…

Tentei mais tarde, mas também sem sucesso. Estranhei aquela ausência repentina, pois nada haviam comentado conosco na noite anterior. Somente quando retornaram nossa ligação, já no sábado à tarde, ficamos sabendo do ocorrido.

Aconteceu que, empolgados com o nosso relato sobre Penedo, resolveram no café da manhã do feriado, partir para aquela cidade e ali ficar até o domingo. Viagem por impulso, resolvida na hora, sem preocupações prévias, sem adiar prazeres, sem lenço nem documento.

Lançaram-se à estrada já gozando antecipadamente as delícias do fim de semana. Lá chegando, almoçaram em um dos locais indicados em nossa conversa. Começavam bem o programa, pois a comida era realmente muito gostosa.

A seguir foram em busca do mesmo hotel em que havíamos ficado:

— Nós queríamos uma suíte com varanda, janelas para o verde e lareira.

— Senhor, não temos nenhuma disponibilidade neste final de semana.

Foi a primeira decepção. Pediram então indicação de outros hotéis similares e receberam três sugestões.

Partiram para o mais próximo:

—  Nós queríamos uma suíte com varanda, janelas para o verde e lareira.

— Infelizmente não temos.

— OK. Pode ser sem varanda.

O recepcionista balançou a cabeça negativamente.

— Está bem. Esquece as janelas para o verde.

— Mesmo assim não temos.

— Pronto. Se não tem jeito, vamos ficar sem lareira, apesar do friozinho.

— Senhor, não temos nenhum quarto. Estão todos ocupados. Há mais de 15 dias esgotamos as reservas.

Já meio desanimados foram em busca das outras duas alternativas. A história se repetiu.

Caía a noite e o cansaço quando resolveram então ir parando de hotel em hotel, decididos a ficar na primeira vaga que encontrassem. Esta era a viagem sem lenço nem documento. Qualquer quarto seria ótimo. Afinal era apenas para dormir, já que o dia passariam em visitas e passeios.

Assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo: mais de 20 hotéis visitados e nenhuma vaga.

A sucessão de fracassos foi trazendo desesperança. Não se conformavam que uma cidade daquelas, cheia de opções, não houvesse um único quarto disponível. Era incompreensível, imprevisível…

A esta altura já era noite fechada. Chegaram a pensar em voltar para o Rio de Janeiro e dormir em casa, mas a perspectiva de mais duas horas de viagem, no meio da noite, após um dia de fadiga e frustrações era desalentadora. Voltaram à infrutífera busca.

Mais algumas recepções e decepções, acabaram por chegar à uma pequena pousada, sendo atendidos pelo próprio dono. O senhor era muito simpático e prestativo. Ficou sensibilizado com a situação do casal, porém explicou que nada poderia fazer, pois não havia sequer um quarto vago. O casal insistiu, já desesperado:

— Por favor, qualquer lugar para que possamos dormir apenas esta noite. Um único pernoite, não precisa nem café da manhã. Somente uma cama. Consegue isso para nós, por favor.

 — Meu amigo, quarto nós não temos. O que eu posso fazer? Vejam, não é adequado, mas há um local embaixo da escada que usamos como depósito. Só se eu tirar algumas coisas e colocar um colchão para vocês dormirem esta noite. Podem usar o banheiro da recepção.

 — Está ótimo. Pode ser sim. Muito obrigado! Vamos fazer assim. Eu pago a diária normal. Que bom ter encontrado uma pessoa bondosa como o senhor. Nós vamos ficar!

Tomada a decisão, o casal sentou num banco em frente à escada e assistiu a arrumação de sua suíte presidencial. Dois funcionários da pousada tiraram alguns baldes, vassouras e produtos de limpeza do tal depósito que ia virar quarto. Ali mesmo já havia um colchão guardado na posição vertical. Foi só colocá-lo no chão, arrumar a cama e estava pronto o tão ansiado aposento. Sem varanda, sem lareira e sem janela.

Mas um depósito não vira quarto sem cobrar um preço. O cubículo, possuía um cheiro de mofo misturado com odores dos produtos de limpeza que ali repousavam por anos e, portanto, impregnava as paredes e a madeira da escada.

O casal deitou-se exausto. Poucos segundos depois começaram a tossir e mal conseguiam respirar. Foram até o lado de fora para tomar ar e tentaram mais uma vez. Impossível.

— Meu amigo, agradecemos, mas nós vamos voltar para casa.

Já passava de uma da manhã quando pegaram a estrada.

Chegaram em casa no meio da madrugada e desmaiaram num quarto maravilhoso, sem varanda, sem lareira, sem janelas para o verde e sem cheiro.

Que programa… Improvisar no que é planejável é um risco alto.

Nossa capacidade de improvisar, por maior que seja, não deve representar desprezo, e sim desejo, por planejar.

A propósito, há uma boa frase do escritor Mark Twain:

Geralmente levo mais de 3 semanas a preparar um discurso de improviso.

Antonio Carlos Sarmento

29 comentários em “IMPROVISO”

  1. Caro amigo Antônio Carlos, bom dia e feliz domingo. Li a crônica de hoje e digo que na verdade detesto improvisos. Sou extremamente organizado, tipo “Monk” ( lembra da série de TV) e por isso não me acerto com os improvisos. Sempre planejo tudo com bastante antecedência e quando não dá certo fico muito chateado! Mas como não sou perfeito, eu tenho os meus defeitos. Vá tentar entender as pessoas!! Abraços e boa semana e fiquem com Deus.

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    1. Meu querido amigo Aylton,
      Com alegria recebo seu comentário. Só não sei se pelos seus planos, está em Campinas, Teresópolis ou na nova casa no Recreio.
      Quanto aos seus defeitos ainda estou buscando… hahahaha
      Grande abraço meu caro amigo!

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  2. Cacau, o improviso não pode ser confundido com imprudência, o que aconteceu com o ” coitado ” do casal foi imprudência.
    Viajar sem reservar, aí não!
    Mas, a lição de sua, mais uma vez ótima crônica,é o planejar.
    Saber improvisar é necessário, mas planejar é fundamental!
    E você é muito bom nisso!
    Beijos

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  3. Caro Antonio Carlos:
    A última vez que estive em Penedo – já se vão alguns bons anos – tive a melhor da impressões sobre a cidade, que brilha pela sua generosa gastronomia de excelente qualidade, além de possuir vistosas áreas verdes, banhadas por exuberantes cachoeiras.
    Mas, posso lhe garantir; foi tudo muito bem planejado, com antecedência de 30 dias, para evitar o que infelizmente ocorreu com seu casal de amigos.
    Sds. do seu admirador,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Já havia notado, há muito, que o amigo é de fato organizado no campo profissional, o que provavelmente também ocorre no campo pessoal.
      Mais uma vez, muito obrigado por acompanhar de modo infalível a publicação das crônicas e sempre enviar seus preciosos comentários.
      Grande abraço e uma ótima semana!

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    1. Fefe,
      Fico contente que tenha gostado. E destacado a frase que te chamou a atenção. É sempre interessante saber que pontos do texto se destacaram para o leitor – isto alimenta quem escreve.
      Beijos no Tom e uma ótima semana para vocês!

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  4. A vida é realmente uma aprendizagem constante, com ou sem planeamento/surpresas. Estou certa que esse segundo casal aprendeu bem que a ligeireza e a precipitação são muitas vezes uma péssima opção. Mas também é importante que a racionalidade não neutralize completamente o espírito de aventura e o gosto pela surpresa. Eles sempre são um bom tempero para a Vida!
    Tudo depende do espírito e expectativas iniciais. Se não tivermos estas ultimas…tudo corre bem mesmo que corra mal, não é?

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    1. Caro amigo JH,
      Viver de improviso pode ser perigoso mesmo. O tal do “deixa a vida me levar” pode chegar a lugares indesejados…
      Grato por comentar, meu caro amigo.
      Grande abraço e uma semana feliz pra você, Sueli e toda a família! Bjk na Catarina!

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  5. Ahhh Penedo, acabou sendo o nosso improviso.
    Após uma semana num roteiro gastronômico com queijos e trutas em terras mineiras com planejamentos e reservas funcionando plenamente nas visitas, restaurantes e hotéis chegamos ao anoitecer no último hotel, reservado num aplicativo de hospedagens, que ficaríamos antes de retornar à nossa casa, este ainda em Minas Gerais. Acessamos a guarita bem iluminada com o portão aberto e percorremos o caminho sinuoso, longo, bem cuidado até chegar à recepção e as diversas acomodações, para nossa surpresa tudo fechado e sem ninguém para nos dar sequer alguma informação.
    Cansados nossa opção foi dirigir à cidade mais próxima para dormir, Penedo. Era uma sexta-feira de inverno, foi acolhedor e surprendente o Hotel Britânia que nos recebeu sem reserva. Um feliz improviso na nosso roteiro!

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    1. Minha irmã,
      Lembro desta história. Foi o caso típico de improviso a partir de um planejamento, não é? Havia a reserva, mas o hotel furou e aí houve o inevitável, mas bem sucedido improviso.
      Beijos, obrigado por comentar e uma ótima semana!

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  6. Boa tarde meu querido amigo! Parabéns, Muito legal e divertida crônica. Improviso não faz parte do meu perfil e certamente do seu também. Abração.

    Enviado do meu iPhone

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  7. Muito divertido esse conto, gostei e fiquei imaginando a narrativa dessa história para os amigos e familiares que não foram nessa aventura de passeio.
    Parabéns meu bom amigo e irmão, Antônio Carlos.

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  8. Meu primo,
    Interessante que a palavra improviso me traz à mente uma imagem muito simpática: dos repentistas nordestinos que nos oferecem uma poesia criativa e inteligente , ora alegre e divertida, ora triste e saudosista.
    Improviso, afinal, é sempre bem- vindo- seja para divertir, seja para socorrer, quando o inesperado nos surpreende no dia a dia .
    Com certeza, é uma alternativa para quando não sabemos o que fazer. Longe de ser usado como regra: falta de planejamento e sinônimo de imprudência.

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    1. Querida prima Gena,
      Com alegria recebo seu comentário. Estou percebendo que o seu planejamento reservou as noites de sexta-feira para ler as crônicas e comentar. Ótimo, pois assim alegra também as vésperas do meu fim de semana.
      Bem lembrado sobre os repentistas, que são mestres no improviso como arte e poesia.
      Beijos e desejo uma maravilhosa semana!

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  9. Querido primo,
    hoje você se enganou: leio as crônicas logo que saem do forno, na maioria das vezes.
    Ou à noite, mas raramente fica para outros dias.
    O comentário é que faço questão de tratar com tranquilidade , porque quero dedicar atenção e calma a esse privilégio que é a interação com o autor .
    Grande abraço!

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  10. Realmente gostei da crônica, mas confesso fiquei muito atento e curioso. Como vai terminar? Para quem estuda, ensina, pratica e gosta de planejamento, improviso é pesadelo! Fico com a frase contundente do meu novo guru Mark Twain! Forte abraço amigo!

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