PARALELEPÍPEDO

Acho que ninguém deve tentar pronunciar o título desta crônica.

Eu sei que deveria tê-lo evitado, pois a palavra exige muito do aparelho vocal, obrigando a um desconfortável malabarismo da língua e dos lábios. Poderia ter trocado a deselegante palavra por “pedra de calçamento”, mas não o fiz pois lembrei que meu neto Guilherme, aos 3 anos, desmancha-se em risadas toda vez que ouve e tenta repetir este palavrão. Um dia ele há de ler esta crônica e vai esboçar um sorriso nesta parte, o que faz valer a pena manter o título.

Mas este é apenas um apelido para a história que desejo contar. Vamos a ela.

Era o mês de novembro de 1984. Fazíamos uma viagem de automóvel pelo sul do Brasil. Eu dirigia o carro, ao lado minha mulher e no banco de trás, meu sogro, quase um passageiro clandestino.

Eu não ia contar como o clandestino foi parar nesta viagem, mas para não deixar o leitor na curiosidade, faço um breve relato do fato, até hoje pouco compreendido na família. Ele se foi 8 anos depois desta viagem e levou as explicações, que assim também se tornaram clandestinas…

Na ocasião, eu e minha mulher aceitamos uma oferta de emprego e estávamos deixando o Rio de Janeiro para ir morar na cidade de Porto Alegre. Antes de pegar a estrada, passamos na casa dos meus sogros para apanhar mais algumas coisas e nos despedirmos.

Antes de partir, dados os emocionados abraços e beijos, estacionei o carro bem em frente ao pequeno prédio onde moravam e, da janela, os pais de minha mulher nos olhavam com os olhos marejados, enquanto eu fazia as últimas arrumações. O automóvel estava bem carregado. A bagagem ocupava todo o porta-malas e ainda uma boa parte do banco de trás.

Quando terminei de acomodar os últimos volumes, já pronto para o adeus derradeiro, meu sogro iniciou um diálogo surpreendente, ele na janela e eu na calçada:

— Deu tudo e ainda sobrou um espacinho, não é?

— Sim. Bem tranquilo.

— Cabe até mais uma pessoa aí no banco de trás.

— É verdade.

— Eu, por exemplo!

Fiquei surpreso. Achei que era uma brincadeira.

— Claro. Vem com a gente, então — convidei.

— Me dá 10 minutos.

Era verdade. Ele voou para dentro, fez uma malinha a toque de caixa e uma meia-hora depois já éramos três na estrada em direção ao nosso distante destino.

Ali pelo segundo dia da viagem, estávamos num trecho bem vazio e tranquilo, quando visualizei um grande caminhão à nossa frente. Reduzi a velocidade, para observar se haveria condições de fazer a ultrapassagem.

Ao nos aproximarmos ocorreu o inesperado. O caminhão passou por cima de um paralelepípedo — por favor, não me perguntem o que fazia um paralelepípedo solto no meio de uma estrada de asfalto. Eu vi nitidamente quando o bloco de pedra foi lançado para cima com a passagem do último eixo do caminhão. Até onde sei, pedra não voa, mas provavelmente houve ali um arranjo tal que o pneu fez uma forte pressão ao passar por cima dela e a impeliu para cima.

Foi tudo em uma fração de segundo. Pisei fundo no freio, já que não havia espaço nem tempo para desviar. Porém, percebi claramente que seria impossível evitar a colisão com o objeto.

O paralelepípedo subiu mais de um metro. O pior cenário, sem dúvida, seria entrar pelo para-brisas, provocando certamente uma tragédia. Felizmente, logo ingressou numa trajetória de queda, enquanto eu mantinha os olhos fixos nele e os pés fixos no pedal de freio.

Por incrível que pareça, o momento em que o paralelepípedo tocou o chão foi o mesmo em que chegamos ao seu encontro. A pedra embaralhou-se por baixo do carro, produzindo muito barulho e fazendo supor um grande número de danos. Após uma pancada mais forte veio novamente o silêncio e o objeto foi deixado para trás.

O carro comportou-se como alguém que toma uma grande dose de veneno e fica bem, sem sintomas, como se tivesse apenas bebido um copo d’água. O motor não parou, a direção e os freios funcionaram normalmente e não se percebia qualquer anormalidade.

Mesmo assim, por precaução e curiosidade, parei para verificar a extensão dos estragos. Meu sogro saltou junto, ainda assustado, provavelmente arrependido por ter trocado a janela de casa pela janela do carro…

Deitei no chão para olhar a extensão dos danos ao automóvel e apenas vi uma mossa no fundo do porta-malas, provavelmente decorrente daquela pancada final, mais forte, quando da despedida do paralelepípedo.

Nada nos impedia de seguir viagem e então prosseguimos: eu, a mossa na parte de baixo, a moça ao meu lado e o nosso bem-vindo passageiro clandestino, que saiu para o sul e quase foi para o céu.

Chegamos ao destino sem contratempos e aquele “veneno” nunca produziu qualquer sequela. Fiquei muitos anos com o carro, sem qualquer problema.

No caminho, ainda sob o impacto dos acontecimentos, fomos comentando que só compreendemos verdadeiramente o valor da vida quando sentimos a ameaça real de perdê-la. Os riscos estão aí, por toda a parte, queiramos ou não, saibamos ou não deles, desejemos ou não os evitar. Muitos são desconhecidos, inesperados e traiçoeiros, como o ocorrido conosco.

Sendo assim, só o que podemos fazer é nos esforçar para não correr riscos desnecessários e enfrentar os que não podemos nos dar ao luxo de evitar. Afinal, todas as coisas que valem a pena na vida envolvem riscos. O que precisamos é ter equilíbrio, bom senso e coragem. Não devemos ser imprudentes, mas ao mesmo tempo, tentar esquivar-se demais dos riscos é apequenar a vida. Acaba sendo muito arriscado não arriscar nada.

Percebemos também naquele episódio que uma mão salvadora evitou a nossa morte. Lembrei uma frase de Einstein, que indica haver duas maneiras de viver a vida: uma, como se os milagres não existissem e outra, como se tudo na vida fosse milagre. Ficamos com a segunda.

Devia ter guardado a data exata daquele acontecimento e, todo ano, reunir os três para cantar parabéns e comemorar o aniversário das novas vidas que renasceram naquele dia. No bolo estaria escrito:

Não acredito em milagres, mas que eles existem, existem!

Antonio Carlos Sarmento

32 comentários em “PARALELEPÍPEDO”

  1. Muito bom!
    Nascer é uma vitória, e depois que nascemos temos que vencer os desafios que aparecerão. A vida, acho eu, se resume nisso.
    E os “paralelepípedos” existirão, querendo ou não, e são de diversos tamanhos.
    Nessa nossa trajetória por aqui, aproveitando um trecho da sua narrativa, devemos fixar os pés no chão e os olhos fixos no céu.
    Desde o começo a vida é um milagre!

    Bjs

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    1. Bom dia meu amigo! Realmente viver é um risco incalculável! Certa ocasião, eu tinha 17 anos e eu e minha família fomos passar um feriado alongado num sítio próximo à cidade de Paraiba do Sul, e atrás passava o rio do mesmo nome! Fomos tomar banho no rio e tinha uma ilha no meio do rio e inexperientes eu e minha mãe mergulhamos no rio sem saber nadar! Resultado a correnteza nos levou e já íamos nos afogando quando um capataz do sítio, bastante prevenido, nos alcançou com um barco e eu já estava indo para o fundo do rio, já sem forças, quando senti aquele braço forte do capataz puxando-me para a borda do barco! Resultado: fomos salvos, eu e minha mãe! “A imprudência e o desconhecimento é a ignorância da vida”! Até hoje penso naquele momento perigoso! Viver é uma dádiva de Deus, mas precisamos ser cautelosos! Um grande e afetuoso abraço e fiquem com Deus.

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      1. Querido amigo Aylton,
        É isso mesmo: os perigos estão por aí, em toda a parte, até mesmo onde nem imaginamos.
        Felizmente a sua história também teve um desfecho feliz. Mas percebo que deixou marcas, pois até hoje lembra do acontecimento.
        Muito obrigado por compartilhar a história aqui, meu amigo.
        Um grande abraço e uma ótima semana!

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  2. Olha…que susto 😱 hein!!!
    Proteção divina em grande proporção.
    Gostei muito de recordar o desprendimento do Sr.Abel em embarcar na aventura e seguir a direção do coração ❤
    Isso por si só já é um “milagre “.
    Bom domingo irmão!

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  3. Excelente crônica!
    Li assim que enviou, fiz junto com vocês a viagem, sentindo as emoções.
    Por simples coincidência, ontem conheci um jovem caminhoneiro que descreveu assaltos, atoleiros, derrapagens dos quais saiu vivo por “milagres”.
    Acidentes nas estrada são mais frequentes do que imaginamos.
    Creio no amor divino que protege. É bom termos essa certeza, dá sentido à caminhada.
    Um bom domingo de chuva e aconchego, cheio de milagres de beleza, generosidade e alegria!

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  4. Realmente querido amigo foi uma graça de Deus não ter acontecido nada e você deve,sim, agradecer muito e é o que está fazendo agora. O interessante é que após o desfecho feliz do imprevisto, o imprevisto anterior da companhia do seu sogro me causou muita curiosidade…. Você poderia escrever um pouco mais a respeito…. Fico com com as minhas conjecturas….
    Bom fim de semana amigo e família.
    Muito interessante a crônica como sempre.

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    1. Caro amigo Nei,
      Vou satisfazer a sua curiosidade aqui mesmo: meu sogro veio de Portugal para o Brasil ainda jovem e nunca mais voltou. Sabia que o sul do Brasil era de colonização europeia e sonhava em conhecer, talvez esperando encontrar ali sinais de sua terra (embora a predominância por lá seja de italianos e alemães). Isto foi o máximo que consegui extrair dele, gente muito boa, mas fechado e de poucas palavras.
      Muito obrigado por seu comentário, meu amigo.
      Uma ótima semana para você e para a Santa Jaciara!

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  5. Amigo Antonio Carlos:
    Já me defrontei com situação semelhante e tão desagradável. Só que, no meu caso, o paralelepípedo, ao ser arremessado por outro carro, contra a porta, foi capaz de perfurá-la, graças à fragilidade dos nossos carros nacionais. Se fosse um DODGE, FORD ou Chevrolet, duvido que algo acontecesse com tamanha extensão.
    Sds. do seu fiel leitor,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Então as situações que vivemos provam que, de fato, pedra voa!!!
      E são arremessadas com força, pois elevar um paralelepípedo a mais de um metro de altura e outro com tanta força a ponto de perfurar uma porta é algo notável.
      Obrigado por compartilhar suas histórias, meu amigo.
      Uma ótima semana, na paz.
      Grande abraço!

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  6. Viver é uma benção e como tal temos que aproveitar cada minuto. Não conheci mas, adorei seu sogro. Imagino a cara de vocês!!!
    Beijão pros dois

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    1. Amiga Lucia,
      Sabe que a ida do meu sogro foi de grande ajuda: ele era muito habilidoso nos serviços domésticos e, como o apartamento era de primeira locação, havia muita coisa a fazer.
      Pudemos contar com ele para tudo!
      Ficou um mês conosco e depois voltou para o Rio deixando saudades…
      Boas lembranças.
      Obrigado por comentar, minha amiga!
      Beijos e uma ótima semana!

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  7. Por isso temos agradecer a Deus os milagres que acontecem nas nossas vidas todos os dias.
    Os imprevistos acontecem mesmo.
    No relato da crônica de hoje, a ação divina foi fundamental e os anjos cuidaram de vocês.
    Interessante a decisão do sogro de viajar ao contemplar o carro carregado e com vocês quase partindo.
    Abração e ótima semana!

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    1. Amigo Newton,
      Cada dia é um milagre, não é mesmo?
      E, com o disse, os imprevistos são mesmo inevitáveis. Só a ação divina para nos preservar…
      Muito obrigado por comentar, meu caro.
      Uma ótima semana para você e Nuri.
      Fiquem com Deus!

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  8. Quantas vezes Deus nos livra de percalços como esse, sem deixar nenhuma sequela. E tantas vezes esquecemos de agradecer a Ele pelo tal livramento. Sua crônica nos faz parar, refletir e agradecer cada momento na vida. Até os mais difíceis.

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    1. Amigo Luigi,
      É isso mesmo. Há até livramentos que nem sabemos, riscos enormes que corremos, fomos salvos e nem tomamos conhecimento, não acha?
      Só podemos mesmo contar com a proteção divina.
      Uma ótima semana para vocês, meu amigo.
      Fiquem com Deus!

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  9. Boa tarde primo mas sempre existem paralelepípedos no caminho como já entoou em poema nosso Drummond de Andrade.
    Alguns maiores e outros menores mas sempre estão lá e só nos resta contar com o além e as novas tecnologias para nos proteger.
    Nesta sua crônica o que mais me admirou foi o desapego e prontidão do terceiro passageiro que se prontificou a ir sem nenhum planejamento.
    Não raro muitos destes paralelepípedos nós conduzem a mudança de rota de nossas vidas.
    Parabéns pela crônica e que o Universo sempre conspire para que os paralelepípedos dos nossos caminhos caiam adiante como foi o caso.
    Um abração e tenham todos uma ótima semana.

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    1. Querido Primo,
      Realmente o terceiro passageiro teve uma atitude inesperada e até um pouco difícil de compreender. Mas, como comentei por aqui em resposta a outros leitores, foi de grande ajuda para nós e permaneceu um mês por lá, ajudando e também curtindo a cidade de Porto Alegre, tão diferente da cidade em que vivia.
      Guardo esta lembrança dele com muito carinho.
      Muito obrigado por comentar, meu primo.
      Desejo uma ótima semana a você e todos os seus.
      Grande abraço!

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  10. Ótima crônica Cau, relembrei a ida de vocês para o Sul com o carona aventureiro Sr.Abel.
    A correria cotidiana nos impede de enxergar os milagres que acontecem todos os dias na nossa vida. Só enxergamos quando o inesperado acontece .
    Gratidão à Deus por tantos milagres em nossas vidas e na dos que tanto amamos!
    Beijo grande.

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    1. Minha irmã,
      É assim mesmo: a roda da vida não para e às vezes passamos pelos acontecimentos sem perceber a intervenção divina. Olhamos e não vemos..
      Muito obrigado por comentar, querida.
      Beijos e uma maravilhosa semana!

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    2. Meu bom amigo é irmão Antônio Carlos.
      Aprendemos com a leitura do evangelho quem reza tem grande possibilidade de ser salvo.
      “Tudo o que pedirdes a meu pai em meu nome Ele vos dará”.
      Não tenho duvida que vcs pediram a proteção de Deus antes de iniciaram a viagem. Assim, não é um milagre, é a presença de Deus em sua defesa e da família.
      É como eu penso, um bom dia p todos da família.
      Oslúzio

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  11. Caro Amigo, Muito bom dia, “Seguiu para o sul e quase foi para o céu”, só uma mente privilegiada como a sua para bolar uma “dessas”.. Parabéns!!! Recomendações à Sônia e demais familiares.

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    1. Amigo JH,
      Só você e a sua sensibilidade para dar valor a estas expressões que me ocorrem sem que eu saiba de onde surgem…
      Muito grato por receber seu infalível comentário todas as semanas. Tem muito valor para mim.
      Grande abraço, meu caro amigo.
      E que tenham uma maravilhosa semana!

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