AUTOMÁTICO

Estamos vivendo num mundo que cada vez mais funciona em modo automático.

A gente se aproxima do carro e ele destrava as portas, anoitece e os faróis acendem, chove e os limpadores ligam, a gente sai dirigindo e as portas travam sozinhas. Em breve, nem dirigir será mais necessário, a chamada condução autônoma. Fico imaginando que, quando precisar abastecer, o carro vai sozinho para o posto de combustível, depois de escolher aquele que esteja oferecendo o melhor preço. Tudo automático!

É assim, não só nos carros, mas em tudo que lidamos no mundo da tecnologia. Luzes acendem, aparelhos ligam, mensagens são enviadas, ordens são emitidas, contas são pagas, produtos são despachados, contratos são renovados e vai por aí a fora. Tem agora, invenção dos deuses, o robô aspirador que limpa a casa sozinho, comandado à distância pelo celular. Tudo automático!

Por estes dias comprei uma balança doméstica que, ao subir para checar o peso, envia várias informações para um aplicativo no celular que registra parâmetros relativos à saúde, faz cálculos e desenha gráficos. Tudo automático!

Este automatismo nos encanta, pois proporciona economia de esforço e tempo, tornando cada vez mais admirável a evolução tecnológica. Mas tudo na vida tem um outro lado…

Há pouco tempo hospedei-me em um hotel à beira-mar, no nordeste do Brasil em um trecho de natureza exuberante e pouco povoado. Uma das qualidades anunciadas pelo estabelecimento era o fato de possuir um gerador para o caso de falta de energia elétrica, muito comum na região.

Pois bem, algumas vezes durante os primeiros dias percebi a luz apagar e logo voltar apenas no hotel, deixando a vizinhança mergulhada numa escuridão de caverna. Bendito gerador!

Ali pelo terceiro dia, eu estava tratando de uma providência junto à recepção quando a luz apagou e demorou um pouco a voltar. Ficamos momentaneamente na mais absoluta escuridão. O rapaz da recepção logo informou orgulhoso:

— Não se preocupe, o gerador já vai entrar. É automático!

Mal ele acabou de falar e as luzes voltaram a se acender. Que maravilha o automatismo. Não precisou ninguém sair correndo para apertar um botão ou fazer qualquer manobra. Da recepção era possível escutar o gerador trabalhando para o nosso conforto. A vizinhança permaneceu nas trevas: o paraíso e o inferno, lado a lado.

Continuamos o assunto e, alguns minutos depois, notamos a volta da energia elétrica na região, dando luz à vizinhança. Virou tudo paraíso novamente, naquele delicioso pedacinho da costa brasileira.

Só que o gerador continuou ligado e se fazendo ouvir.

— O gerador ainda está funcionando — comentei.

— Sim. Era para ter desligado. Ele desliga automaticamente. Vou chamar o eletricista.

Nosso assunto já havia terminado, mas fiquei por ali, curioso com o andamento do assunto. Logo chegou o eletricista, inteirou-se do acontecido e partiu resoluto em direção ao gerador, que fazia o inútil esforço e desperdiçava combustível.

Fiquei aguardando disfarçadamente e dedilhando o celular sem nenhum interesse. Claro, enquanto aquele gerador não desligasse eu não arrastaria o pé dali. Afinal tenho crônicas a escrever e não posso desperdiçar oportunidades.

Mais uns dez minutos e chega o nosso, digamos assim, eletricista. Estava suado, cansado e amuado:

— O automático não desliga — afirmou acusatoriamente, identificando o culpado.

Pensei comigo: grande descoberta e uma perfeição de diagnóstico. A verdade é que o automático havia ganhado a briga.

— Por isso que te chamei — rebateu o rapaz da recepção.

— Sim. Mas eu tentei de tudo e o gerador não desliga. Vou chamar o Joselandio para ver. Ele entende mais de automático que eu.

Meu Deus! Quer dizer que agora tem eletricista e automatista? Não saio daqui até o desfecho da contenda, agora que viria um outro lutador para enfrentar o automático.

Disse isso e partiu cabisbaixo para o interior do hotel em busca do herói que iria salvar a situação. Enquanto isso, o gerador mancomunado com o tal de automático, mostrava sua superioridade, roncando do jeito que queria.

O tempo ia passando e nada acontecia.

Não cronometrei, mas foram pelo menos quinze minutos. De repente, sem que o Joselandio sequer fosse localizado, o gerador resolveu descansar e nos brindou com um maravilhoso silêncio.

— Graças a Deus! — exclamou o rapaz da recepção.

Fiquei sabendo então que apenas os deuses entendem de mecanismos automáticos.

Permaneci no hotel por uma semana e, cada vez que a luz piscava, eu pensava no automático, no Joselandio e em Deus…

Em outra ocasião, fui à casa da minha filha recém-casada para acompanhar a entrega de uma geladeira que ganhara de presente. Eu estava tranquilo, pois além da compra também havia sido contratada a instalação.

Logo constatei que eram equipes diferentes: dois rapazes para transportar a geladeira e um instalador que estava ali apenas para ligar e dar as orientações. Muito bom.

Indiquei o local onde ficaria o equipamento. A equipe de entrega posicionou, desembalou e logo se despediu, deixando o instalador com ares de especialista. O rapaz explicou-me:

— A instalação é bem simples. É só colocar na tomada e ela faz tudo automaticamente. Já funciona a parte da geladeira e do freezer. Vou ligar e lhe mostro como regular as temperaturas, ok?

— Perfeito — respondi, encantado com tanto automatismo.

Muito bem. O instalador conectou a geladeira na tomada e no mesmo momento ouvimos um estalo e um forte cheiro de queimado.

O especialista, de testa franzida, tirou rapidamente da tomada, sacou um multímetro da maleta e mediu a tensão.

— Esta tomada é de 220 volts?

— Meu amigo, eu não sei. Este apartamento é alugado.

— O senhor comprou uma geladeira de 110 volts e a tomada é de 220 volts. A placa queimou.

— Meu amigo, eu não comprei. Esta geladeira foi um presente de casamento. Mas você tinha o aparelho para medir antes de ligar a geladeira e não o fez.

— Eu vim instalar uma geladeira de 110 volts.

— Pois é. E ligou ela numa tomada de 220 volts.

Ai meu Deus! A geladeira era toda automática: a única coisa manual era ligá-la na tomada. Só uma coisa poderia dar errado: e deu.

Não resisti e, lembrando o caso do hotel, perguntei:

— O seu nome é Joselandio?

Antonio Carlos Sarmento

25 comentários em “AUTOMÁTICO”

  1. Muito interessante, a automação é um avanço incontrolável e até em alguns casos para nossa geração mais antiga, a todo momento exclamamos: ” Como é que pode!” e surpreendidos com as novidades vem a frase mais que batida, ” no meu tempo…..!”.
    Porém … no meu tempo, tinha o despertador, precisava dar corda e acertar os ponteiros para despertar, recentemente veio o celular e agora veio a Aléssa! É só pedir…
    Mas, perguntei a Aléssa: Aléssa qual o telefone do Joselandio? E ela não soube responder! Como é que pode!…rsrs
    O homem é um aparelho sensacional!
    Cria, exige, conserta, quebra e reclama, e se não fosse assim não precisaria automatizar nada, e seria muito chato.
    Imagine uma esposa automática, sem os predicados citados acima?
    Seria chato! rsrs
    Bem, vou inventar algo para o Domingo.
    Valeu Cacau!
    Bjs
    * Não sei se Aléssa escreve desse modo, não tenho muita intimidade com ela…

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    1. Querido Chico,
      Você traz um automatismo que não citei e é interessantíssimo: já estamos falando com máquinas! E sendo entendidos e respondidos, com palavras e ações. É impressionante.
      Há poucos dias assisti um filme em que um escritor ditava o texto para uma assistente: hoje se pode ditar direto para o computador! Eu não uso este recurso, pois me expressar por fala como se fosse por escrito é algo difícil, pelo menos por enquanto…
      Enfim, são coisas fabulosas, mas que também trazem implicações, muitas das quais ainda não se mostraram plenamente.
      O assunto é infindável, mas merece muita reflexão: foi o que eu quis trazer.
      Beijos e obrigado por sempre comentar!

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  2. Sensacional amigo.
    Tenho muitas reservas quanto a esses automatismo que são práticos mas limitam nossa capacidade de agir e decidir. A geração robot está cada vez mais com limitações nas suas capacidades criativas. É tudo muito prático mas as limitações do agir e decidir não muito negativas na formação principalmente dos jovens. É só apertar um botão e pronto….
    Muito bom esse assunto de hoje e poderíamos ter grandes papos reflexivos a respeito. Gostaria de saber o desfecho da geladeira. O Joselandio foi chamado para o reparo ?
    Parabéns mais um vez amigo.

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    1. Meu caro amigo Nei,
      Suas observações quanto à geração robô são ricas. Ainda mais porque, até bem pouco tempo, vivia junto à eles exercendo suas funções pedagógicas no Colégio, com uma visão mais profunda do assunto.
      O desfecho da geladeira foi a troca da placa, rapidamente realizada e está funcionando até hoje…
      Grande abraço meu amigo e obrigado por comentar!
      Joselandio manda um abraço também!

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  3. Meu bom eo jovem amigo Antônio Carlos, essa crônica descreve o tamanho da sua inteligência ao perceber uma fragilidade de comportamento em face da moderna tecnologia. Eu gostei e dei boas risadas, obrigado!
    Um fraterno abraço na família.
    Osluzio

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  4. Caro Antonio Carlos:
    Ao ler seu bem escrito artigo, me lembrei que, de fato, tudo está se tornando automático, até a “inteligência artificial” empregada, na atualidade, por diversas instituições, mas que, segundo uma crônica que li nesta semana, ainda continua dependendo da atuação da “inteligência humana”, esta certamente insubstituível …
    Sds. do seu admirador,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Obrigado por seu comentário. Também acho que a inteligência humana é insubstituível.
      E quanto mais tecnologia, mais estudo e preparo é exigido de todos nós…
      Grande abraço e uma ótima semana ao amigo e sua família!

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  5. Crônica muito interessante, alerta para refletirmos sobre um tempo em que o automatismo impera.
    Até a vida colocamos no automático, pois desenvolver nossas crenças em algo que produza o bem, a união de todos, a partilha e a amorosidade dá trabalho.
    Ligamos o “automático” e deixamos o tempo passar, sem nenhuma atitude que beneficie a humanidade e a nós mesmos.
    Todo domingo você nos chama a pensar na beleza da vida e na alegria de viver. Com cuidado e boa vontade, fora do “automático” e distribuindo alegria, faz um bom trabalho. Parabéns!
    Um abraço grande e que este lindo domingo de sol seja saboreado.

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  6. Bom dia meu amigo!
    Muito bom seu artigo, obrigada por nos brindar com essa agradável leitura que me desperta curiosidades a cada parágrafo. Imaginei a recepção do hotel, onde estava sua amada Soninha todo o tempo que aguardou o desligamento do gerador, rsrsr, a cara de decepção do eletricista, o macacão todo suado, a aflição dele pra encontrar o Josivaldo,é esse o nome? E tb como foi a história da geladeira, quem arcou ou ficou com o prejuízo? O legal é que me despertou sentidos.
    Abraços pra vocês e saudades de todos e até breve, se Deus quiser!!!

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    1. Oi Renusia,
      Fico contente que tenha gostado e se divertido. Soninha estava muito bem, enquanto eu seguia a trilha do Joselandio… hahaha
      Quanto ao desfecho do caso da geladeira, houve um final feliz: a tal placa foi trocada e funcionou muito bem.
      Obrigado por comentar!
      Abraços e muitas saudades de vocês!

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  7. Caro amigo A. Carlos, me diverti bastante com o automatismo .
    Ótima crônica, como sempre.
    Fico com um pé atrás com esse automatismo e gosto de conferir.
    O instalador da geladeira estava no automático, assim como, o Joselandio.
    Abraços e boa semana!

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  8. O joselandio da geladeira confiou na tomada nem se que testou a tensão. Já vi Caixa d’água molhar a casa toda por falha do automático. São como as pessoas também variam o humor.

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  9. Essa crônica me lembrou um desenho que assisti com meu neto, chamado “Abelha” que mostra um mundo futurista das abelhas. Nesse mundo dependendo da “casta” que voce tiver nascido voce ficaria comendo e assistindo filmes o dia todo, e tudo era automático. Eram todos obesos por isso. Kkkkkk. Uma vez fui entrevistado pela globo pois a pauta era o automatismo dos automoveis modernos. Ao fim o reporter me informava que esses automatismos estavam levando os seres humanos a fazerem pouco exercício. Como eu era à época, obeso, disse-lhe que estava feliz porque finalmente eu havia descoberto o motivo de minha obesidade. Ele riu mas o curioso foi que isso foi parar no Jornal Nacional e eu vi a penetração que tem, ou tinha, aquele noticiário, pois recebi mais de 30 ligações inclusive de gente que não via ha 20 anos!
    Desculpe esse longo comentário, resenha, mas tua crônica me lembrou isso. Abraços e boa semana. Deus nos abençoe.

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    1. Caro Luigi,
      Não conheço o desenho ao qual você se referiu, mas quem sabe tanto automatismo possa mesmo contribuir para a obesidade.
      O conforto é bem-vindo, mas a inércia e o sedentarismo que daí podem resultar são problemas a serem evitados.
      Infelizmente não vi sua presença no Jornal Nacional, que naquela época eu costumava assistir.
      Obrigado pelo comentário, meu amigo!
      Um grande abraço e uma semana feliz junto à sua família.

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  10. Prezado Amigo, Muito boa noite, O olhar de um cronista, é de fato, algo maravilhoso . . . Parabéns!!! Recomendações à Sônia e demais familiares.

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