CINZA

Não gosto muito de óculos escuros. Nem em mim, nem nos outros. Claro que o acessório traz conforto a quem usa, mas ensombra a fisionomia e oculta o estado de espírito da pessoa. É isso que me faz falta. Ah, o olhar, quanta coisa revela. A expressão maior de um rosto está nos olhos.

Noto que em velórios seu uso é intenso, pois as pessoas desejam privacidade para sua emoção, abrigá-la da curiosidade alheia. Compreendo, pois chorar não é coisa para se fazer em público. A gente se tranca no quarto para bem chorar. Melhor rir em público e chorar no privado.

Pois bem, ela estava de óculos escuros. Era a fila de embarque do aeroporto, local sem atrativos, pasteurizado, onde todos têm um desejo em comum: sair dali o quanto antes.

Vestia-se de modo simples, uma calça jeans e blusa branca. Devia ter uns 40 anos, mas sem ver os olhos esta estimativa é duvidosa. O cabelo estava preso num coque na nuca, sem muito capricho e usava um tênis colorido, a única peça com alguma alegria em sua aparência.

Todavia, o que me chamou atenção nela foi uma sacola que tinha na mão direita. Não vendo os olhos, restou-me a sacola. Era de papel pardo, comum, com aquelas alças de papelão retorcido que corroem as mãos de quem a carrega. A lateral trazia estampado em letras grandes, sua origem: Jardim do Éden.

Fiquei intrigado.

Haveria uma loja ou estabelecimento comercial com este nome? Busquei focar em mais detalhes. Abaixo do título, inserido numa ilustração, encontrei a elucidativa e surpreendente palavra: Cemitério!

Alguém com uma sacola de cemitério numa fila de embarque era algo insólito. Desculpe-me o leitor, mas a aridez do aeroporto despertou em mim uma curiosidade mórbida. Eu agora precisava entender o que via.

Prossegui na investigação. Na parte de cima, lacrando a sacola havia uma fita colante da companhia aérea com a inscrição: frágil. Apurei mais a visão e pude perceber uma longa etiqueta colada na parte superior, onde constava a palavra óbito seguida de 5 algarismos e em seguida o nome completo, do qual só consegui decifrar o primeiro: João.

Meu Deus! É espantoso. O João morreu, mesmo assim continua frágil, virou um número, enfiou-se numa sacola, ficou na mão de uma mulher e agora vai viajar de avião!

Eu nunca poderia esperar uma cena destas. O João viajava sem ficha de embarque, sem ocupar poltrona, sem precisar de refeição, mas estava com ela, o que explicava os óculos escuros no interior do aeroporto. Era um velório estendido, do Jardim do Éden até ali, acabando sabe-se lá aonde…

Se tirasse os óculos ela provavelmente revelaria um olhar doce e sofrido, pois ali estava alguém que amava. Podia ser o marido, o pai ou até um irmão. Deus me livre que fosse um filho… Escolhi que seria o pai, a sequência natural da vida e, portanto, a hipótese menos trágica.

Fiquei a pensar sobre os sentimentos de quem carrega as cinzas de um falecido. É daquelas coisas que só passando para saber. Vivi isto no falecimento do meu pai e depois da minha mãe. Uma experiência sui generis, estranha, um misto de sentimentos e emoções a flor da pele. Mexe muito com a nossa alma. Ter junto de si as cinzas de alguém amado é sentir uma presença ausente.

São Tomás de Aquino dizia que amor é o desejo de eternidade da pessoa amada. Acho que o santo tem razão. Sim, o amor quer eternidade.

Se eu pudesse, ofereceria ao João, ainda em vida, os singelos versos do poeta paraibano Ronaldo Cunha Lima:

Quando os meus filhos

Disserem aos meus netos

O quanto eu os amava

E quando meus netos

Disserem aos meus filhos

Que guardam lembranças minhas

E de mim sentem saudade,

Não terei morrido nunca: serei eternidade

Antonio Carlos Sarmento

27 comentários em “CINZA”

  1. Inspiração divina na crônica de hoje. Um texto do além, muito bem desenvolvido e que deixa espaço para adivinhações etéreas durante a leitura.
    A conclusão com um poema que traz uma mensagem que todos nós desejamos nesta breve passagem ou seja, que não foi em vão e sim deixamos pegadas de nossas vidas.
    Parabéns primo e uma feliz semana em família.

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  2. Bonita crônica.
    Passei também a experiência de carregar as cinzas de minha mãe e acredito que nessa situação as reflexões de cada um variam bastante, os nossos pensamentos vão de um ponto a outro de formas bem diferentes e também voam rapidamente de um pólo ao outro.
    Variam da dor do momento, para a gratidão eterna e o privilégio de ter tido a companhia e de tanto amor. E ao mesmo tempo nos mostra o quanto somos “pequeninos”, viramos cinza! ( ao pó voltaremos).

    Sempre penso na eternidade como foi muito bem apresentada na parte final da crônica, creio na ressurreição,
    mas no nosso mundo, no mundo que vivemos, a eternidade é estarmos presentes sendo lembrados pelo que fizemos, pelas histórias que irão contar, pelo amor que plantamos e até seremos conhecidos pelo os que não nos viram. Essa é a eternidade aqui pela Terra.

    Aliás, é assim com o Ressuscitado!
    Nosso amigo e irmão que sempre se faz presente.
    O amor é sempre o caminho, na escuridão ou na luz.

    Obrigado Cacau!
    Estou viajando em bons momentos e vendo quantos estão aqui conosco, vivendo eternamente entre nós e no nosso coração tatuados para sempre.
    Senti muito isso recentemente, na presença das duas missas ( quinta e sexta passadas) de todos os que partiram e estavam ali juntamente conosco, a alegria do Bira, e tantos outros ali no canto.
    Essa uma realidade que todos iremos passar e, para mim, isso é a eternidade!
    E Deus é tão bom, que a música que cantamos na ação de graças foi : ” Tão perto de mim”.

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  3. Lindo! Somos realmente eternidade no coração de quem nos ama. Muito feliz de ter avós que sempre lembro com carinho e amor e se eternizam em nós.

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  4. Prezado Antonio Carlos:

    Os versos da autoria do nosso saudoso poeta Ronaldo da Cunha Lima refletem uma grande realidade.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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  5. Excelente! Gostei muito e dei boas risadas degustando desse nobre vinho com o nome de crônica, servido aos amigo pelo irmão e amigo, Antônio Carlos.
    Parabéns a nossa querida irmã e amiga Sônia, por transmitir para vc essa luz de vigor.
    Osluzio felix

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  6. Sarmento, a imaginação é um território fertil e infinito. Pensei: vai que fosse as cinzas de um cachorro… Porque não? Hoje em dia cachorro é celebridade.
    Outra coisa: tenho amigos que por superstição nunca embarcariam num voo com o conhecimento de cinzas de alguem, kkkkkkk. Mas foi uma crônica belissima e reflexiva. Bom domingo e fique com Deus.

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  7. Meu amigo querido, realmente é muito estranho. As cinzas da minha mãe foram levadas por minha sobrinha para o Rio, pois , quando ainda estava lúcida sempre dizia que voltaria a morar no Leme. Ficou na casa dessa sobrinha por 2 semanas até que eu pudesse ir ao Rio cumprir com seu desejo. Alugamos uma lancha e toda a família foi lançar suas cinzas no mar, em frente à praia do Leme. Ficamos felizes em atender o desejo dela. Beijão em todos

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  8. Uma crónica que me tocou especialmente, pois vivi pela primeira vez e muito recentemente esse contacto com as cinzas de alguém, neste caso de meu pai.
    Não esquecerei o momento em que, depois de as ir buscar à funerária, as “sentei” a meu lado no carro e assim conduzi até casa. Foi muito, mas muito maior a ternura sentida que a estranheza da situação.
    Na verdade ele estava ali comigo, como noutras viagens /situações vividas. Apenas não tive atenção se ele tinha colocado o cinto de segurança…
    Gostei muito da crónica!

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  9. Querido amigo,
    Uma crônica um pouco diferente, para pensar na realidade e no inevitável.
    Ótimas citações de São Tomás de Aquino e Ronaldo Cunha Lima, além das observações com a passageira na fila de embarque.
    Abraços.

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  10. Caro Primo,
    Vejo que apreciou muito a crônica de hoje e isso me alegra.
    Obrigado por compartilhar suas impressões.
    Grande abraço e uma desejo um semana de muita paz e alegrias!

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  11. Chico,
    Você ligou muitos pontos e seu coração sensível e amoroso fez conexões além do conteúdo da crônica.
    Ler seu comentário também me trouxe boas lembranças de pessoas e de momentos.
    Muito obrigado por comentar.
    Beijos e uma ótima semana!

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  12. Fefe,
    Isso mesmo. É interessante pensar que somos nós que damos eternidade aos que amamos e já se foram.
    Uma ótima semana curtindo as boas praias do Ceará e uma beijoca especial no Tom!

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  13. Querido amigo Carlos,
    Como você também aprecio a obra deste poeta. Estes versos são simples e ao mesmo tempo profundos.
    Muitíssimo obrigado pela generosidade de comentar.
    Desejo saúde ao querido amigo!!!
    Abraços

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  14. Meu querido amigo Osluzio,
    Se a crônica foi para você como um bom vinho já me sinto recompensado.
    Obrigado por suas gentis palavras, meu irmão!
    Beijos em toda esta maravilhosa família.

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  15. Querido amigo Luigi,
    A leitura faz voar a imaginação e isso é incomparável. De fato, num primeiro momento poderíamos imaginar que até de um cachorro poderiam ser as cinzas…
    Escolhi o pai, talvez por ter passado por isto em tempos mais recentes.
    Desejo ao amigo e sua família uma semana de muita paz e felicidades.
    Grande abraço!

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  16. Amiga Lucia,
    Me lembro desta passagem e até da foto que você me enviou. Que bom a crônica ter trazido a lembrança de sua mãe, com quem conviveu tão intensamente pela vida toda.
    Obrigado por compartilhar!
    Beijos e espero que já esteja em casa!

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  17. Dulce,
    Bem-vinda em seu retorno das férias.
    Grato por compartilhar sua vivência de proximidade com as cinzas de alguém amado. Foi bom ter sentido mais ternura que estranheza.
    Desejo uma ótima semana!

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  18. Amigo Newton,
    Mais uma vez agradeço sua presença por aqui, sempre comentando os aspectos que gostou na crônica.
    Uma ótima semana meu amigo e espero que a Nuri esteja em plena recuperação.
    Grande abraço!

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  19. Um cronista passa a ser um observador contumaz!!
    Quanta atenção nos detalhes e bastidores do cotidiano!!
    É muito impactante mesmo essa transformação do corpo físico em cinzas.Mas é profundamente alenta-dor deixar marcas positivas por onde vivemos!
    Você Cacau ,já se eternizou mundo à fora…
    Bjos n’alma!!!

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  20. Pode parecer estranho o que eu escrevi mas…quando existe a consciência que o “ir” é o melhor caminho seja para quem vai seja para os que ficam, a ternura pelo que se viveu impõe-se mais facilmente à dor….ou à estranheza de umas cinzas.
    Foi exactamente isso que senti.

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  21. Oi minha irmã,
    De fato a escrita acaba por nos trazer um olhar mais atento até mesmo às coisas simples, do dia a dia.
    Aguça a sensibilidade e dá um colorido maior ao que vivemos.
    Gostei do hífen em alenta-dor. Bem sacado!
    Tenho certeza de que, se os versos com os quais encerro a crônica são verdadeiros, você já está eternizada com antecedência…
    Beijos e uma ótima semana para vocês!

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  22. Grande Meu Amigo, Muito bom dia, Belíssima crônica, como sempre . . . Você usou o termo eternidade e me fez recordar de outro termo com o qual tenho tido contato atualmente: Imortalidade. Como se tornar imortal? É ser recordado com afeto por parentes e amigos em todas as ocasiões. Mais uma vez, parabéns! Recomendações à Sônia e demais familiares.

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  23. Meu amigo JH,
    Desculpe o atraso na resposta, mas estou em Portugal e a viagem mais o fuso me deixaram um pouco fora do ar.
    Você é infalível nos comentários. Muito obrigado!
    Desejo que esteja tudo bem por aí e daqui envio um grande abraço!

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  24. Como sempre, uma linda crônica.
    Li no momento certo, com a casa silenciosa, foram todos curtir o penúltimo dia das férias no Jardim Zoológico, agora rebatizado de Parque…
    Sempre são dolorosos os ritos em homenagem a quem se foi, precisam ser enfrentados de óculos escuros.
    Parabéns pela poesia, que embeleza e torna amena a vida de quem fica.
    Desejo a você e Sonia uma alegre estada em Portugal.

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  25. Helena,
    Mais uma vez agradeço a gentileza de seu comentário e fico contente que tenha apreciado a crônica.
    Aqui em Portugal estamos desfrutando de um tempo agradável, com ótimas temperaturas e as maravilhosas companhias da filha, genro e do neto Guilherme.
    Um grande e afetuoso abraço!

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  26. Antonio Carlos, penso que estou comentando em lugar errado, seu primo me perdoe, como sempre amei a cronica ! E nos deixou curiosos, parados naquela fila …. Imaginosos ! Um abraço, Armanda

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  27. Armanda,
    Pode comentar onde quiser, ok? O aplicativo ás vezes traz certa confusão, mas o importante é que, seja onde for, eu recebo o comentário. E aprecio!
    Fico contente que tenha gostado.
    Um grande abraço e que tenha um domingo de paz e descanso.

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