NO TEATRO

Na semana passada fui ao teatro, coisa que a pandemia do coronavírus me impediu de fazer pelos últimos dois anos.

Curioso que, ao sair de casa, tive a sensação de que aquele programa iria fornecer material para mais uma crônica. Não que esta fosse a intenção, mas o tema para uma crônica acaba sendo oferecido pela vida comum, pelo dia a dia mais trivial.

É interessante como escrever vai deixando a gente mais atento, mais sensível aos acontecimentos e às pessoas, mais observador dos detalhes, da beleza escondida nas coisas simples. É algo que acaba deixando a gente mais vivo.

Mas deixemos a divagação e vamos à ação.

Ao chegar ao teatro, passei por aquele momento de encontrar a poltrona certa. Era na longa fila G, já com muitas pessoas sentadas. Aí o desafio é percorrer a espremida trilha entre os joelhos dos que estão sentados e o encosto da fila da frente, atividade mais própria para acrobatas, equilibristas ou pessoas magérrimas. Desconfio que os projetistas de teatros são os mesmos do interior de aviões…

Depois que me acomodei, percebi que restaram dois lugares vazios ao meu lado, os únicos da fila G.

Mais algum tempo e vejo duas senhoras, aparentemente acima dos 80 anos, passando pela mesma tortura que eu acabara de sofrer. As duas estavam arrumadas com capricho, usavam brincos e pulseiras, carregavam bolsas combinando com os sapatos, cabelos feitos, enfim, finamente preparadas para o evento de ir ao teatro. O traje, a bolsa, a idade e o fato de estarem as duas um pouco gordinhas atravancavam o deslocamento das senhoras naquele exíguo espaço.

Elas tropeçavam, batiam as bolsas na cabeça de alguém da fila da frente, pisavam nos pés de outro da própria fila e distribuíam fartamente pedidos de desculpas. Vinham aos tropeços e solavancos, como dois bêbados caminhando numa linha férrea e tentando equilibrar-se sobre um dos trilhos.

Assim que as vi, preferi rebater o assento e me levantar para facilitar a passagem, coisa que nem todos fizeram e assim dificultaram muito a jornada das pobres senhoras.

A primeira que chegou junto a mim vinha ofegante e exausta como um maratonista na linha de chegada. Olhou-me, esboçou um sorriso constrangido e, literalmente, desabou na poltrona. Uma pausa: confesso ao leitor que me incomoda chamar aquele assento do teatro de “poltrona”…

A segunda senhora vinha logo atrás. Era ainda mais corpulenta. Recuei o máximo que podia para proporcionar-lhe espaço e até encolhi a barriga. Pois bem, ela pisou no meu pé esquerdo, em seguida pisou no meu pé direito e então desequilibrou-se. Seu corpo foi lançado para a fila F em frente e, num ímpeto, tive que segurá-la. Abracei-a por trás na altura da cintura procurando desviar sua trajetória de queda, mas quase fui junto, rebocado pelo peso que insistia em projetar-se para a frente.

Usando toda a minha força, que já não é muita, direcionei seu corpo para a poltrona ao meu lado e por pouco não caí sentado no seu colo. Não obstante o peso e a dificuldade, tive êxito e a senhora, digamos assim, esborralhou-se sentada ao meu lado. Foi ridículo, mas deu resultado.

Ela já sentadinha, olhou-me e agradeceu o salvamento. Os ingratos da Fila F permaneceram em silêncio, quando deveriam aplaudir-me de pé. Mas desconheciam o risco que correram. Seria uma tragédia.

Assim que acalmou a respiração, ela virou-se para a amiga e disse baixinho:

— Estamos muito velhas para vir ao teatro!

A outra assentiu tristemente.

Eu tive vontade de dizer que o problema não era a velhice, mas o projeto do teatro, ruim, mal feito e desconfortável. Que não deviam desistir de sair, arrumar-se, colocar um bom perfume, usar alguma maquiagem, tirar do armário as roupas bonitas e até os sapatos de festa — apesar de terem pisado meus dois pés.

As luzes se apagaram para o início do espetáculo, mas continuei querendo falar para elas que muito pior é ficar em casa, sem boas companhias, sem ver coisas interessantes, com roupas feias e folgadas, de chinelos, a ver televisão e consumir-se de tédio. Nesta idade não é hora de receio, é hora do recreio!

Pensei até em sugerir que começassem a escrever crônicas, porque assim iam querer sair por aí, andar por todo lado a observar mais atentamente a vida, a notar que mesmo nas coisas mais simples, pode haver muita riqueza.

Queria conclamá-las a desmentir certos dicionários que apresentam como sinônimos de envelhecer, os “simpáticos” verbos: murchar, mirrar, definhar, caducar e embranquecer.

Nada disso!

As senhoras devem sair, viver, conviver, reviver, renascer… Só assim, nos seus dicionários os sinônimos poderão ser trocados pelos verbos rir e chorar, vibrar, apreciar e desfrutar.

Afinal, senhoras, no teatro da vida é melhor estar no palco que na plateia!

Antonio Carlos Sarmento

38 comentários em “NO TEATRO”

  1. Excelente mais uma vez meu caro irmão. Como sempre de imediato entrei no Teatro e me posicionei na fila H de onde pude participar de toda a cena a minha frente, muito bem descrita, e não pude evitar vários risos incontroláveis até as lágrimas de tanto rir. OBRIGADO MEU IRMÃO.
    CONTINUEMOS NO PALCO
    MARAVILHA!!!!

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  2. Belíssima crônica. Como sao desrespeitosos as pessoas nos teatro, cinema, etc… deveriam aplaudir pessoas de idade que insistem em sentir-se vivas! É interessante pois qdo vim a primeira vez aos USA, la pelos anos 1988, comentei com minha esposa que nunca vira tantos cadeirantes. Depois pude ver que é porque a vida deles nas ruas é facilitada e respeitada ao passo que no Brasil, é uma tortura, o que os mantem presos em casa. Acessibilidade deveria ser a palavra de ordem desse seculo, mas continuamos sendo insensíveis a isso, infelizmente… bom fds e Deus abençoe voce e sua família.

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    1. Amigo Luigi,
      Certamente no Brasil ainda estamos muito distantes de ter atenção à estas necessidades, o que acaba por limitar a vida de muitos. E atrapalhar até uma simples ida ao teatro…
      Obrigado por comentar. Desejo a você e todos os seus uma ótima semana!
      Grande abraço!

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  3. Os teatros deveriam, como já até acontecem em alguns, deixarem os idosos terem prioridade para a entrada. Primeiramente, pelo menos 15 minutos antes liberarem para os idosos e depois para o restante do público. Ou seja, solução tem o que falta é conscientização.
    Deveria ser obrigatório
    Essas pessoas que são hoje as mais velhas, são as mesmas que desde jovem nunca abandonaram o teatro.
    E assim acontece no teatro e em outras ocasiões, nem sempre o vizinho de cadeira é o Cacau!
    Ótima crônica.
    Bjs

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    1. Chico,
      Esta sua sugestão seria muito fácil de aplicar e acho que daria resultado. Claro que um pouco mais de espaço entre as poltronas também seria muito bem-vindo.
      Obrigado por sempre comentar, meu irmão!
      Uma maravilhosa semana a você, Helen e o nosso Pedrão!

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  4. Fantástico!!! Realmente os teatros foram projetados pelo pessoal das aeronaves e não e sempre que se encontra uma alma caridosa para levantar. Beijão pra todos

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  5. Excelente crônica, querido amigo.
    Apenas a última frase já seria suficiente para te elogiar. ” No teatro da vida é melhor estar no palco que na platéia”. Belo exemplo das idosas… E como sempre seus comentários adicionais são saborosos….. Parabéns também pelo ato heróico de evitar a tragédia que seria a queda da velhinha na fila F.
    Aliás gostei e nas minhas conversas contigo vou usar essa fila F como alguns comentários adicionais. Abraços aos portugueses….

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  6. Verdade, meu amigo Sarmento. Nós devemos buscar, sempre, estar no palco. Vamos ao teatro, ao cinema, ao boteco… Vamos festejar os amigos. Assim temos a garantia de não murchar jamais.

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    1. Meu querido irmão e amigo Antônio Carlos, você tem razão! Não é por ficamos menos jovens (detesto a palavra idoso) que devemos ficar em casa pensando na vida! Temos é que vive-lá! Por isso você sabe como levamos a nossas vidas! Aproveitando ao máximo! No momento estamos em Teresópolis e coordenamos ontem uma festa julina na nossa quadra de esportes e compareceram 80 pessoas! Foi um sucesso! E assim vamos tocando a vida como vocês estão fazendo também! E viva os menos jovens que tem vontade, coragem e ainda forças para viver, como as velhinhas do teatro. Um grande e afetuoso abraço em vocês e fiquem com Deus.

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      1. Amigo Aylton,
        Sei que levam uma vida dinâmica e variada. Continuem assim, vibrando com os acontecimentos e indo em busca de novas experiências.
        Um carinhoso abraço a você, Reginia e toda a família!

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  7. Muito bom Cacau. Essa visão é muito importante, ainda mais se considerarmos que a depressão é uma doença silenciosa que teve um vertiginoso aumento na pandemia. Viva a vida! Parabéns.

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    1. Caro Guimo,
      O isolamento leva à solidão e esta danada tem muitas consequências…
      Sei que você é dos que vibram e muito com a vida.
      Obrigado por comentar!
      Grande abraço e uma ótima semana com muitas preparações e sabores!!!

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  8. Ótima!!! Vc foi o herói da peça e nem lhe agradeceram. Fiquei imaginando o desenrolar caso houvesse o enrolar-se juntamente com a senhora. Depois dessa vou me cuidar mais pra não ser pega por nenhum olhar tão atento às minúcias como o seu rsrss. Muito hilário isso!! Grande abraço.

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  9. Prezado Amigo Sarmento, Muito bom dia, Perfeito! No teatro da vida somos todos nós atores, não importa a idade que tenhamos. Mais uma bela crônica. Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Jean, ao pequeno Gui e demais familiares.
    https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail Livre de vírus. http://www.avast.com https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=webmail. <#DAB4FAD8-2DD7-40BB-A1B8-4E2AA1F9FDF2>

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  10. Suas crônicas são aulas para mim. Depois de tanto tempo sem cinema e teatro e dois anos mais idosa vou me preparar para nova estreia. O dia que for a um desses programas vou procurar chegar bem cedo, usando um sapato bem confortável e ser a última a sair pois pode haver queda no empurra empurra da saída. Um beijo grande!!!!

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  11. Meu querido Irmão!
    Não sei se a peça que assistiram foi boa, mas para nós, seus leitores, só a sua descrição da ida ao Teatro já valeu. Ri demais!
    Obrigada pela leveza de um fim de domingo, divertido.
    Bjks.

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  12. Me identifiquei com essas senhoras animadas e insistindo no lazer, no prazer e nas coisas boas da vida!!
    Só espero encontrar sempre um Cacau pra compreender as dificuldades e ainda assim reparar nos brincos e nos perfumes caprichados!!
    Muito bom 👍!!!!

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  13. Vejo-me em canário , somos expectadores e grandes artistas de um palco infindável, onde praticamos malabarismo sem sermos de fato o artista.
    São suas crônicas que nós encanta e faz nós levar as expectativas de nosso dia a dia.
    Obrigado por suas escritas , são os rabiscos singelos de sua gratidão aos olhos vistos.
    Um grande abraço, fã de sua existência!

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  14. Querido cronista,
    Às vezes me identifico com seus personagens. E hoje ( quase) me vi nessa crônica: arrumada com capricho, com brincos e pulseiras, um pouco gordinha, maquiada e um bom perfume. Pensei: se não fosse pelos oitenta anos, diria que se chama Gena.
    Mas recuei. Jamais me sentiria velha para ir ao teatro! Isso não me descreve.
    Recebo, feliz, a vida que, graciosamente, Deus me deu, para desfrutar, enfrentar, superar, sorrir, recomeçar, dividir…
    Nada envelhece tão bem como o olhar de esperança!
    Um texto divertido para abordar um tema sério. Parabéns!
    Beijo

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    1. Querida Gena,
      É interessante quando a gente se identifica com os personagens de uma história, mesmo que não totalmente. Você ainda está longe dos oitenta anos e tem vitalidade e alegria de sobra!
      A idade deve chegar apenas no calendário, não na mente e no espírito, não é?
      Obrigado pelo comentário, minha prima.
      Beijos nos netinhos e nas filhas!

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  15. Meu jovem amigo e irmão, eu gostei.
    Quem frequenta o teatro sabe e entende o que vc passou por ser educado e amar o próximo.
    Parabéns pela bela mensagem de civilidade.
    Obrigado.
    Osluzio Félix

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  16. Meu Querido Amigo Antonio Carlos!
    Enquanto aguardo a Rosa sair do Consultório Dentário, pude ler a crônica de Domingo.
    Acho que estou lendo-a no momento adequado pois, hoje nos deixou um gênio das artes: Jô Soares>
    Meu amigo, que maravilha de texto, ele é atual,humano, solidário e incentivador. Você sse superou e na minha opinião, está no Top Five.
    Parabéns e que Deus sempre te ilumine para nos deliciar semanalmente com suas lindas crônicas.
    Sucesso meu caro, Deus te Abençoe.

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