BOM OU RUIM

Coisa chata é contar viagem. É quase como contar vantagem… Chato para quem ouve, claro, pois aquele que acaba de retornar de um roteiro maravilhoso parece reviver tudo, relatando em detalhes seus deslumbres, enquanto o pobre coitado do ouvinte precisa se contentar com vislumbres.

Para piorar, o intrépido viajante pode começar a mostrar fotos, o que na maior parte das vezes, leva o infeliz espectador a um nível recorde de tédio, podendo em situações extremas, se a coisa for prolongada, a impaciência revelar-se, prevalecendo sobre a boa educação!

Mesmo ciente de tudo isso, vou me arriscar a comentar uma estada no Japão, onde passei 45 dias, lá pelos idos de 1992. Deve estar o leitor a imaginar que relato de viagem já é desinteressante, mas viagem antiga consegue ser ainda pior… Prometo, entretanto, apenas apresentar algumas observações e contar poucos episódios, sem pretender incluir dicas nem sugestões de visitas ou, Deus me livre, descrever atrações turísticas.

Era um programa de intercâmbio patrocinado pelo governo japonês e formávamos um grupo com pessoas de diversas partes do mundo. Chegamos nas instalações onde ficaríamos hospedados durante o programa e, antes mesmo de deixarmos as malas, fomos levados à um auditório para uma palestra sobre terremotos no Japão. Que coisa amável…

Foram dadas orientações do que fazer em tais situações e alertaram que poderia ocorrer a qualquer momento, mas as estruturas das edificações estavam preparadas para tais circunstâncias. Apenas alguns cuidados preventivos precisavam ser tomados. O palestrante, muito simpático, tinha nome de motocicleta, mas não me lembro se era Suzuki, Honda ou Yamaha.

Ainda balançado por esta surpreendente recepção sísmica, fui levado às minhas acomodações, onde exausto da longa viagem, mergulhei num sono profundo até às 8 horas do dia seguinte. No café da manhã, fiquei sabendo que tinha havido um pânico noturno, com gente de pijama gritando pelos corredores, ataques histéricos e choros desesperados, tudo devido a um terremoto de intensidade média que sacudiu a cidade de Tóquio por alguns minutos no meio da madrugada. Foi o único tremor de terra até o fim da minha permanência por lá, mas sequer tenho noção do ocorrido. Logo de início, a viagem ao Japão serviu para desfazer a minha fama de ter o sono leve…

Passemos à gastronomia. Eu nunca havia experimentado comida japonesa. O primeiro restaurante que fui era um grande balcão em formato oval, com banquinhos redondos em volta e uma esteira central, onde ficavam passando pratinhos coloridos com sushis e sashimis. Um cozinheiro no centro abastecia a esteira constantemente. Era só pegar o pratinho desejado e degustar. Tudo uma delícia! No final, a gente levava a pilha dos pratinhos consumidos no caixa: cada cor tinha um preço e era só somar e pagar. A simplicidade e eficiência japonesa em ação.

Muito animado, no dia seguinte fui a outro restaurante, este não turístico, levado por um nativo. O serviço era o tradicional, com o cardápio em japonês, e por isto deixei os pedidos a cargo do meu acompanhante. O primeiro prato que veio era um espeto, onde tremelicavam pequenos peixes vivos! Fiquei apavorado. O japonês retirou um, passou no molho e enquanto o bichinho ainda se debatia, colocou-o na boca e mastigou. Foi o fim do meu apetite. Fui dormir com fome…

Outro tipo de restaurante possuía um cardápio, a meu ver, perfeito: uma vitrine, logo na entrada, exibia uma amostra dos pratos. Bastava levar o garçom lá e mostrar o que se desejava comer. As amostras eram muito bem feitas, usando um material plástico e colorido, parecendo comida de verdade. Que coisa boa escolher o prato, não por uma descrição dos ingredientes, mas vendo ao vivo suas cores e texturas. A vitrine conseguia que a língua não atrapalhasse o estômago!

Certo dia, resolvi conhecer o metrô de Tóquio, na hora do pico. Sabia que era o mais carregado do mundo. Tinha ouvido dizer que agentes empurravam os passageiros com bastões, para poder fechar as portas. Precisava ver isto ao vivo. Acordei mais cedo, caminhei até a estação mais próxima e fiquei aguardando o trem em direção à estação mais importante do centro da cidade.

Havia uma multidão na plataforma: achei que apenas um trem completamente vazio poderia absorver tantos passageiros. Quando o trem entrou na estação e foi reduzindo a velocidade, pude ver que já estava lotado. Tinha gente com a cara espremida no vidro!

– Não vai caber mais ninguém. – pensei.

O trem parou, abriu as portas e, sem saber como, fui literalmente teletransportado para o seu interior. Parecia uma abdução! Quando recuperei a consciência já estava dentro do trem, no meio do corredor. Eu me senti como uma ilha latina, cercada de nipônicos por todos os lados, espaços, curvas e  reentrâncias do meu corpo. Uma japonesa estava literalmente aderida à minha perna direita, grudada como uma cera depilatória. Atrás de mim, sentia uma cabeça de lado, contra as minhas costas, como se fosse um médico auscultando meus pulmões sem estetoscópio.

Meu braço esquerdo estava para cima e havia um corpo estranho no sovaco, prensando minhas costelas. Era o crânio de um japonês cabeçudo. Eu não sabia o que fazer com este braço, pois não alcançava a barra de apoio do teto, que estava distante. O outro braço estava para baixo, parecendo engessado, devido ao contato com dezenas de partes inimagináveis de japoneses. O braço de cima não descia e o de baixo não subia.

Como os japoneses são de estatura mais baixa, minha cabeça ficou de fora e pude observar os agentes do metrô com luvas brancas, empurrando a multidão para fechar as portas e aumentando ainda mais a pressão interna. Posso dizer que nunca estive tão próximo de pessoas estranhas como naquele momento. Para eles era algo normal, cotidiano, encarado com muita naturalidade, mas devo confessar que aquele excesso de contato físico foi um constrangimento para mim: nem dançando agarradinho havia experimentado tamanha proximidade com outro ser humano!

Depois de três estações chegamos ao destino. Ali foi destampada a panela de pressão e uma inesgotável massa de pessoas escapou pelas saídas, como numa abertura de comportas de uma represa. Não tive coragem de repetir esta incursão metroviária, mas fiquei pensando naqueles milhares de pessoas que diariamente viajavam na ida e na volta naquele sistema tão apinhado de gente.

Aqui vale citar algo que chamava a atenção: os homens vestiam-se formalmente, quase todos de terno escuro. As mulheres eram impressionantes: andavam maquiadas, perfumadas, com os cabelos cuidadosamente penteados, brincos e colares, de salto alto e muito bem vestidas. Todas, até mesmo as que se deslocavam de bicicleta, vestiam-se com extremo capricho. No tempo em que lá estive não vi ninguém de calça jeans e camiseta. A elegância parecia ser uma marca do povo japonês. E circulavam num ambiente de prédios e lojas impecáveis, calçadas lisas, largas e limpas, praças e parques arborizados e bem cuidados, nenhum ambulante, nenhum pedinte e nenhum morador de rua. Coisa admirável!

E a segurança pública? Lembro que vinha voltando de um jantar tardio e caminhava em direção ao alojamento, quando entrei num beco com muros dos dois lados, sem nenhum movimento. Em sentido contrário vinha uma mulher sozinha, caminhando tranquilamente, com suas joias e bolsa de grife. Passou por mim deixando um rastro de perfume e calma, sem a menor preocupação com o fato de ser quase uma da manhã, num local ermo. Algo inimaginável para a cabeça de um carioca.

Minha única desventura foi no primeiro domingo, quando resolvi ir à missa numa igreja católica, coisa escassa e difícil de encontrar. Já tinha sido alertado para sempre buscar informações com as pessoas jovens, pois tinham mais chance de falar inglês. Eu tinha o endereço e cheguei à porta após um zig zag de metrô e uma longa caminhada a pé.

Era um prédio de uns 15 andares e a igreja ficava em um dos pavimentos, mas eu não sabia o andar correto. Um senhor de uns 50 anos, quepe e paletó de botões dourados, estava postado na entrada. Perguntei-lhe qual era o andar da igreja católica. O sujeito, espantado, balançou a cabeça negativamente. Tentei insistir, mas ele se afastou e fez cara feia. Pensei em recorrer ao quadro da portaria, mas estava tudo em japonês. Procurei por uma cruz ou algum símbolo católico: nada!

Relutando, fui novamente na direção do porteiro para mais uma tentativa. Quando ele percebeu, armou-se de uma cara tão hostil que parecia estar na tropa que fez o ataque à Pearl Harbor na segunda guerra. Desisti…

Passei os quarenta e cinco dias desfrutando de muitas novidades, mas depois de uns 20 dias as saudades do Brasil já incomodavam. Na véspera de partir, conversava com um brasileiro que estava lá há 6 meses, num outro programa de intercâmbio, de duração mais longa. Parafraseando Tom Jobim, ele resumiu em apenas uma frase a impressão que tivemos do Japão:

– O Japão é bom! Mas é ruim… E o Brasil é ruim! Mas é bom!

 

Antonio Carlos Sarmento

17 comentários em “BOM OU RUIM”

  1. Caro Amigo, muito bom dia . . . Como sempre, muito boa crônica . . . Recordar com alegria aquilo que se viveu é um ato de gratidão para conosco mesmos e, se se divide essa felicidade, está completo o ciclo . . . Parabéns!!! Recomendações à família.

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  2. Sarmento, 2 coisas interessantes tua bela crônica me fez refletir: que Tom Jobim costumava repetir o último parágrafo da crônica apenas trocando Japão por NYC, o que nunca entendi muito bem; que literalmente, em nenhuma viagem da minha vida, longa ou curta, senti saudades do Brasil. Não sei te esclarecer o motivo, mas lendo sua crônica me veio a mente essa certeza. Creio que tenho em mim um DNA de imigrante, herdado de meu pai. Bom domingo, fique com Deus e excelente semana. Ha, até domingo que vem!

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    1. Caro Luigi,
      Muito obrigado por seu comentário. De fato eu não conhecia a frase de Tom Jobim, mas você tem razão.
      Para fazer justiça ao nosso grande poeta e músico, fiz um pequeno ajuste no texto e citei ele como autor da frase.
      Um grande abraço!

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  3. Querido primo
    Lendo sua crônica me lembrei de uma frase vista recentemente onde se lia que antes de viajar ficamos sem palavras ; depois nos transformamos em contadores de histórias.
    Mas, ouvindo Cecilia Meirelles ” liberdade de pousar onde o coração quer”, digo que meu coração esta feliz de ir ao Rio neste mês de março, para abraçar uma linda e querida família que se despede do Brasil e beijar muito um principe que faz 1 ano.
    Rio de Janeiro: assaltos, arrastão, insegurança..
    Rio de Janeiro é ruim! Mas é muuuuito bom!!!

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  4. hahahahaha sério, ri muito com sua descrição do metrô. Basicamente é isso que passamos no BRT hoje em dia. Você perde a dignidade em segundos. Excelente relatos, parabéns. Quero conhecer o japão.

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  5. Viva o Brasil !
    E aqui que falam em vida de gado ?
    Depois dessa sua crônica, prefiro ficar aqui no curral ou no pasto, sem terremoto e sem recepções de terror rsrsrs….

    Gostei muito !
    Bjs

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  6. Estou imaginando a cena no metrô, eu desceria na próxima estação.
    Estou imaginando a sua cara quando viu o japonês comer o peixe vivo.
    Estou imaginando o que o japonês pensou quando você perguntou sobre a igreja.
    Não consigo imaginar uma cidade com calçadas largas e limpas.
    De tudo isto, concluo como você sobre o Japão e o Brasil.
    Finalizo dizendo que suas crônicas não existem boas e ruins. São todas ótimas
    Parabéns mais uma vez.

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  7. Meu prezado amigo historiador e irmão, Antônio Carlos.

    Peço a sua permissão para informar que também já passei por essa experiência, porém, tenho uma visão diferenciada de sua analise e comentário sobre o Japão.
    Em síntese, meu comentário tive um aprendizado ao verificar na presença humana que o sentido de fraternidade, honestidade e educação estão mais presentes com o povo japonês do que em qualquer outra parte da terra.
    Louvo também que os meios de transportes, todos, são limpos, eficientes apesar dos altos custos em comparação a moeda real.
    Quanto ao comentário da superlotação nos trens, não tenho nenhuma dúvida que ao desembarcar seus pertences continuavam todos com você, diferentemente do que acontece em boa parte de alguns países que o meu bom amigo deve conhecer. (rsssss.)
    Manifesto meus agradecimentos pela oportunidade com todo respeito pelos relatos das suas crônicas, meu comentário faço pelo carinho e admiração ao amigo, irmão e por todos da família, pedindo para continuar o belíssimo trabalho de escritor/cronista.

    Obrigado!

    Um fraterno abraço.

    Oslúzio Félix Fonseca

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    1. Querido amigo Oslúzio,
      Agradeço muito seu fundamentado comentário, que enriquece a crônica com visões da experiência de cada um. Muito bom!
      Retribuo o carinho e admiração que tenho pelo amigo e sua maravilhosa família.
      Deus os abençõe!
      Grande abraço!

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