CANETADA

Mania é coisa que todo mundo tem, sem saber como ou quando adquiriu, muito menos por quê. Nós quase sempre nem sabemos as manias que temos, pois ignoramos as nossas e só nos incomodamos com as dos outros. Assim como fazemos com os nossos defeitos…

E deixar uma mania, por mais banal e inocente que seja, é quase tão difícil quanto parar de beber ou fumar. Tem gente que muda de vida, mas não perde certas manias.

A melhor frase sobre isso ouvi do meu pai que, aliás, tinha mania de colecionar frases. Certa vez, ele estava arrumando o carro para uma viagem, já abarrotado, pois éramos cinco pessoas, quando cheguei com meu travesseiro embaixo do braço:

– O que é isso? – questionou ele.

– Meu travesseiro. – respondi.

– Lá tem travesseiro. Não precisa levar.

– Pai, mas eu tenho mania de dormir com este.

– A melhor mania é não ter nenhuma!

Pronto: o travesseiro eu abandonei após algum tempo, mas a frase me acompanha até hoje.

Teve um período que peguei, sei lá de quem, a mania de cantar no chuveiro. Coisa inocente, sem prejuízo para ninguém, exceto para aqueles que são obrigados a ouvir um desafinado cacarejando sem parar, em alto som, pois o barulho do chuveiro ensurdece quem canta e desregula o volume da voz.

Se fosse só isso tudo bem, mas o problema estava no repertório: sempre a mesma música! Eu mesmo já não aguentava mais e, apesar de decidido a abandonar o hábito, quando menos esperava me surpreendia cantando a tal melodia. Já não precisava nem do chuveiro. Quase procurei os Cantores Afônicos, grupo de ajuda mútua para quem tem esta mania e que fazem a promessa, renovada diariamente, de só por hoje não cantar…

As manias de modo geral nos limitam, podem causar incômodos a nós ou aos outros e às vezes até prejudicar a nossa saúde física. A mania que cresce muito pode ficar tão forte que  recebe o apelido de vício. Daí para frente já é assunto de saúde mental, o que escapa do tema da crônica e da competência do cronista.

Mas vamos a fatos concretos: houve uma fase da minha vida em que peguei gosto por canetas. Não as caras e sofisticadas, já que sou dotado de uma inacreditável habilidade de perdê-las em tempo recorde. Coisa impressionante! Um talento natural que sequer me custou esforço para desenvolver. Algumas vezes usei uma caneta apenas para uma anotação e nunca mais soube de seu paradeiro. Aliás, as canetas têm esta propriedade: uma vez perdidas quase nunca retornam a seus donos! Talvez seja porque quem acha sai escrevendo e não se lembra de buscar o infeliz e verdadeiro proprietário.

A mania que adquiri consistia basicamente em escolher uma caneta para cada ocasião, assim como quem escolhe uma roupa. Se havia um contrato para assinar, um modelo preto com algum detalhe dourado. Dia comum, uma canetinha prateada, leve e eficiente. Para uma sexta-feira mais alegre, uma ponta porosa com arabescos coloridos. Coisa besta. E dispendiosa, pois exige um estoque…

Na vivência desta mania, um caso constrangedor ocorreu comigo durante um evento profissional em Salvador, alguns anos atrás. Auditório lotado e uma mesa com três apresentadores, sendo que eu ocupava o lugar do meio. Terminadas as palestras ficamos os três à disposição para perguntas da platéia. A primeira pergunta foi dirigida a mim e precisei anotar alguns aspectos para a resposta. Busquei a caneta de aspecto formal, grossa, preta e brilhante, selecionada com muito critério para a ocasião. Fui direto com a mão direita no bolso interno esquerdo do paletó, onde sempre a colocava, mas estava vazio. Procurei nos outros bolsos já nervoso, pois o interrogante, meio arrogante, avançava em afirmações a serem contraditas e eu precisava anotar.

O outro palestrante ao meu lado, vendo o desespero em que me encontrava, puxou o seu instrumento de escrita (descobri a pouco tempo que a Montblanc chama as canetas que fabrica desta forma) e gentilmente me emprestou. Foi o meu salvador em Salvador!

Passados alguns dias recebi uma ligação dele:

– Graças a Deus te encontrei. Procurei seu telefone por todo o lado e consegui através de um colega que te conhece. Lembra de mim? Emprestei a você minha caneta naquele evento semana passada aqui em Salvador.

– Claro que lembro. Agradeço muito a sua gentileza.

– Ok. Mas a caneta ficou com você?

– Acho que não. Você tem mania de caneta?

– Não é isso. Estou procurando, pois tem valor afetivo. Era do meu pai já falecido.

– Por favor, me deixe procurar e depois te ligo, caso eu localize. – respondi já sabendo que dificilmente encontraria.

Mais tarde revirei o terno e a mala da viagem. Como esperado, não achei. Desta vez pensei que havia me superado: perder uma caneta que não era minha! Felizmente, quando retornei para dar a má notícia ele me brindou com a boa notícia: havia encontrado o instrumento de escrita! Felizmente neste caso, o sentimento de culpa era apenas fruto da minha imaginação…

Prosseguindo nesta minha mania de contar casos, vou encerrar com outra passagem, também no ambiente profissional, quando ainda vigorava esta fixação por canetas. Eu trabalhava numa empresa com uma forte cultura de grupos de trabalho e comissões: quando não se sabia o que fazer, criava-se uma comissão.

E assim foi feito quando ocorreu um acidente e era preciso apurar as causas e responsáveis para poder tomar as medidas necessárias. A comissão era de cinco pessoas, dentre as quais eu – e minha caneta.

Naqueles dias estava fixado em uma esferográfica de design muito interessante e, tal como um perito em armas, me esmerava em montar e desmontar a dita cuja. Ela tinha peças e encaixes muito interessantes e assim, durante palestras, reuniões e outras ocasiões entediantes, dedicava-me a brincar com aquele quebra-cabeças, espalhando as peças e depois reunindo-as da forma correta, regozijando-me toda vez que a montagem dava certo.

A primeira reunião da citada comissão, foi para ouvir o superintendente do setor responsável pelo acidente. Era um profissional com muitos anos de casa, mais velho que todos da comissão, larga experiência e, desde suas primeiras palavras, deixou nítido que desacreditava da nossa capacidade de analisar e opinar sobre o ocorrido.

Estávamos em torno de uma mesa redonda, eu bem em frente à fera. Para escapar do constrangimento enquanto ele falava, lancei mão da caneta quebra-cabeças. Por obra do tinhoso, ao iniciar a desmontagem, girei a parte superior e uma peça voou da caneta. O projétil disparou em alta velocidade, percorreu uma trajetória reta e acertou o superintendente no meio da testa!

O sujeito deu um recuo e, atordoado, levou a mão ao local sem entender o ocorrido. Naquela fração de segundo pensei que teria que procurar emprego em breve, pois o homem que já era brabo teria uma reação terrível.

Todos olharam para mim. Vi olhares acusadores, quase indagando se eu havia enlouquecido… Antes que pudesse tentar consertar a situação, pedindo desculpas e explicando o fato, o superintendente deu um surpreendente sorriso olhando para mim e disse:

– Boa pontaria, hein?

Foi uma risada geral!

Muito admirado com aquela reação amistosa, me desculpei e busquei o bólido que tinha voado para longe. Afinal quebra-cabeças que falta uma peça não serve mais para nada…

Já era quase hora do almoço e ele então sugeriu um intervalo, logo aceito por todos. Quando eu ia saindo me convidou para almoçarmos juntos, aumentando ainda mais minha perplexidade. Fiquei achando que o disparo atingiu-o numa espécie de ponto G do cérebro, pois ocasionou uma verdadeira metamorfose!

Dali em diante os trabalhos da comissão correram muito bem, de modo colaborativo e em plena harmonia. O relatório final ficou pronto no prazo e apresentou consistentes recomendações, nenhuma delas adotadas, conforme já era esperado por todos da comissão.

Assim nos tornamos amigos e muitas outras vezes voltamos a nos encontrar apenas pelo prazer de fazer uma refeição juntos e trocar ideias.

Pouco tempo depois perdi a caneta e a mania, mas o amigo permaneceu por muitos anos.

 

Antonio Carlos Sarmento

26 comentários em “CANETADA”

  1. Prezado Amigo, Muito bom dia, Mias uma, como sempre bela crônica, hilária, interessantíssima mas, para mim, poderia para na fala de seu saudoso pai: – A melhor mania é não ter nenhuma! Caramba, que tirada sensacional, pura verdade, como é saudável recordarmos pessoas queridas . . . Recomendações à Sonia.

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    1. Fala chico,
      Esta semana estou respondendo rápido, pois semana passada pisei na bola.
      Me envolvi com o imposto de renda, que tomou todo o meu tempo.
      Consultei um especialista e esta mania que você revelou não tem problema, ok? Pode ficar tranquilo e continuar com ela…
      Bjs

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  2. É meu amigo: cada louco com sua mania. A minha, por exemplo é colecionar carros antigos, preferência que me custa muito caro e tempo despendido.

    Sds. e parabéns pelo costumeiro brilhantismo da redação.

    Carlos Vieira Reis

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  3. Muito boa!
    “A melhor mania é não ter nenhuma” É o máximo…., mas muito difícil de seguir. Tenho varias manias, hehehe!
    Queria ter estado nessa reunião. Imagino o susto dele e a sua tensão pela reação. Foi bom pra quebrar o gelo!
    Parabéns meu cronista preferido!
    👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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  4. Fala meu amigo! Qtas coincidências na vida. Vejo que, de alguma forma, somos todos “manipulados” como marionetes por ELE, porque a vida de todos nós, na essência, é igual! Me diverti muito como sempre, aos domingos, quando leio suas crônicas. Mais uma vez obrigado e que Deus o abençoe e proteja. Saúde e cuide-se.

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  5. Ainda bem que sua mania não tenha sido por CANETA AZUL ou AZUL CANETA.
    Esta crônica me deixou uma dúvida. Em uma de suas crônicas, escrevi que estava viciado nelas e agora quando abro a aba de “leitor”, vou procurar para saber se tem alguma crônica sua. Acho que isto já é uma mania. Sei que você não é médico, mas o que tenho, vício ou mania?
    Parabéns por mais uma.
    abraços

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  6. Prezado Antônio Carlos
    Adorei a crônica . Lia e saboreava algumas passagens que, de certa forma, eram semelhantes às que vivi mas deixei de fazê-lo porque ….não encontrei a minha caneta. Forte abraço!

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  7. Querido cronista,
    Hoje tenho essa mania: ir para o cantinho macio da varanda, todos os domingos , e ler agradáveis crônicas.
    O poeta já disse que mania é coisa que a gente tem , mas nao sabe porque.
    Será? Porque eu sei o motivo desse esperado momento: tenho uma leitura leve, com trocadilhos inteligentes, com um olhar otimista, e muitas vezes bem-humorado, da vida. Fala de histórias da família e me mantém em contato com esse primo que sempre foi querido entre nós.
    Já esperando domingo!!

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    1. Querida prima Gena,
      Esta é uma mania sem contra indicações.
      Através dos seus comentários também vivo este contato com você, de quem só tenho maravilhosas lembranças desde a nossa infância.
      Obrigado pelo comentário e pelo carinho.
      Beijos

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  8. Meu bom amigo Antônio Carlos.

    Um bom amigo tem em nosso coração a permanência para sempre, isso acontece porque a espiritualidade não tem prazo de validade.

    Reconheço no exemplo da minha relação por amizade, respeito, admiração e o modelo de ensinamento praticado pelo meu bom Amigo Antônio Carlos, e por todos da sua maravilhosa família.

    Um bom cristão para Cristo é chamado a servir como luz do mundo.

    Desejo um fraterno abraço ao meu querido Amigo e Irmão em Cristo Jesus.

    Oslúzio Felix Fonseca

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