NAS ASAS DO AZAR

Era uma viagem à serviço do Rio de Janeiro para a cidade de Fortaleza, no Ceará. Um voo com duração de umas 3 horas, o que é pouco para dormir e muito para ficar sem fazer nada.

Éramos cinco colegas e conversávamos animadamente, evitando os assuntos de trabalho e aproveitando os drinks gentilmente servidos. Meu lugar era na janela, do lado direito da aeronave.

Já havia mais de uma hora de voo quando olhei distraidamente para fora e tive um sobressalto. A turbina, a poucos metros de mim, cuspia labaredas e uma fumaça preta deixava um rastro no céu.

Fiquei apavorado!

Quando pensei em alertar os colegas, um aviso sonoro com voz lúgubre revelou que havia um problema técnico, orientou que todos voltassem aos seus lugares, afivelassem os cintos de segurança e ali permanecessem. Foi um silêncio sepulcral.

Seguimos assim por uns cinco minutos, que pareceram cinco horas. Um novo aviso procurava nos tranquilizar, informando a falha na turbina direita, mas garantindo que o avião podia prosseguir normalmente até o destino com apenas uma turbina. Claro que ninguém acreditou, mas não havia o que fazer.

Dali para frente foram quase duas horas do voo mais silencioso e tenebroso da minha vida. Meu chefe estava nesta viagem e foi a única vez em que olhei para ele sem pensar numa promoção…

Ao pousar, houve não uma salva, mas uma saraivada de palmas. Só não aplaudimos de pé por motivos óbvios. Foi como ressuscitar! A maioria de nós já se considerava com ficha de embarque e assento marcado para a vida eterna. Achei que, por já estarmos no céu, o caminho seria mais curto até o paraíso, meu destino preferencial, claro!

Deste dia em diante, procurei me esquivar de viagens aéreas à capital do Ceará. Uma dor de barriga num dia, uma gripe no outro e fui minimizando as idas àquela bela cidade, já que a turbina fumegante teimava em não desocupar minha mente. Algumas vezes tive que ir, pois até mentira tem limite e afinal eu continuava de olho naquela promoção à qual já me referi.

Felizmente, depois deste evento, nunca mais passei por nada parecido. Apenas alguns sustos menores, sem comparação com aquele incêndio nos ares.

Recentemente, mais de 20 anos depois, resolvemos fazer uma viagem à uma praia do Ceará com um casal de amigos. Para chegar era necessário voar até Fortaleza e de lá prosseguir por terra mais umas duas horas. Assim fizemos.

Não nego que, vez por outra, eu lançava um olhar temeroso para as turbinas, principalmente a da direita.

Tudo correu bem e o voo foi calmo, sem turbulências e também sem drinks, mais uma das nefastas consequências da pandemia do coronavírus.

Mas nem sempre a gente precisa de uma sexta-feira 13 para encontrar com o azar. A surpresa estava reservada para a volta.

Após uma semana de sol e praia entramos na fila de embarque no horário previsto. Chegou a nossa vez, o pessoal do controle fez a leitura do código de barras de nossa ficha de embarque, exibimos a carteira de identidade e, quando íamos ingressar no finger, solicitaram que aguardássemos.

Mais alguns minutos e interromperam os procedimentos de embarque. Retiraram todos que já haviam passado pelo controle e orientaram que as filas fossem desfeitas e que nos acomodássemos nos assentos do aeroporto, até que fosse possível um novo chamado.

Fomos tomar um café sem ter vontade, só para passar o tempo.

Café, como tudo em aeroporto, custa uma fortuna e assim a gente gasta o dinheiro sem querer, mas gasta o tempo querendo, comentando sobre o preço excessivo, especulando se o café vem da Indonésia ou da Jamaica para custar tanto assim, reclamando e fazendo comparações. Reclamar é mesmo uma ótima forma de desperdiçar o tempo.

Cerca de 15 minutos depois fomos chamados para reembarque. Desconfiados, quisemos saber o que havia ocorrido:

— É que tinha um cheiro forte no interior do avião e seria desconfortável para viajar. Agora já tomamos as providências e está tudo normalizado.

A história não me cheirou bem…

Garantiram que estava tudo normal e embarcamos, ansiosos por voltar para casa. Apurei o olfato e nada constatei de estranho: cheiro de avião mesmo.

Todos se acomodaram, o comandante — que na realidade é o mandante — pediu desculpas pelo pequeno atraso e alinhou a aeronave na pista. Partiu!

A gente foi sentindo a aceleração, as coisas passando cada vez mais rápido pela janela e aquela expectativa por deixar o solo. Quando parecia que o avião ia se libertar do contato com o chão, o comandante aplicou o freio com toda a potência para abortar a decolagem.

O avião tremeu todo e sobreveio um barulho ensurdecedor. Na velocidade em que estava, prestes a decolar, o tempo de frenagem se prolongou. Foram instantes de pânico: olhos arregalados, cabelos arrepiados, tremedeiras superiores à do avião e o balbucio de orações.

Quando a velocidade caiu para um nível razoável e o barulho cessou, indicando a retomada do controle e a redução do risco, uma mulher lá atrás, gritou:

— Eu quero sair!!!!

Foi logo apoiada por muitas outras vozes que exclamavam:

— Eu também, eu também.

O coral dos desesperados!

O avião retornou ao finger. Desembarcamos e aguardamos por 7 horas a chegada de uma nova aeronave para realizar a viagem.

Não era apenas um cheiro, era apenas uma mentira…

Chegamos ao destino no meio da madrugada. Já em casa, ao deitar, tomei uma drástica decisão:

É uma fraqueza, mas não volto à Fortaleza!

 

Antonio Carlos Sarmento

20 comentários em “NAS ASAS DO AZAR”

  1. Gostei do termino da crônica com uma rima…. Kkkkkkkk. O bom de sermos… maduros, é que temos muitas histórias a contar. A questão é ter a sua competência para fazê-lo agradavelmente.
    Bom domingo e Deus abençoe voce e sua familia.

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  2. Realmente aí não dá para voltar a Fortaleza!!!

    Viu, ouviu, sentiu e virou uma crença negativa, e nesse caso depois de instalada fica difícil refazer….
    Aliás e pensando bem, também não vou mais para Fortaleza kkkkk
    Tá louco!

    Beijos
    Chico

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  3. Xi… tô que nem o Chico!! Nem vou mais pra Fortaleza!!hahahaha..
    Que susto 😱
    Viajar de avião gera sempre uma tensão mas igualmente recompensado pelo alívio da chegada e o deleite dos bons momentos vividos!!
    Partiu..

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    1. Minha irmã,
      Por coincidência os dois casos foram em voos para Fortaleza, cidade belíssima e aprazível, mas… hahahaha
      Obrigado por comentar minha irmã.
      Acabo de me lembrar que o Tom foi recentemente para lá. Felizmente sem nenhum susto.
      Beijos e uma ótima semana!

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  4. Quando me tornei gerente do Unibanco da área de atacado do banco, vivia viajando para lá e para cá no país, de Manaus a Porto Alegre. Eu tinha verdadeiro pavor de voar. Mas fazer o que? E lá ia eu quase toda semana está na cidade diferente, sendo que SP e BH eram as mais visitadas. E o medo cada vez aumentava mais. Fica pensando nos filhos pequenos e outras bobagens a mais. Voei em tudo que foi tipo de avião: Convair, Constellecion, Avro (uma porcaria), Electra (seguro), mas nada ser comparava com os primeiros aviões da
    Embraer que ia para Campos dos Goytacazes, avião minúsculo. Enfim muitos modelos e medo continuava aumentando, fora as tempestades que vez por outra aparecia, ou então na época do calorão os vacuos que aconteciam na rota RJ/BH/RJ, era cada vácuo que quase desmaiava. Não podia comer nada no voo que passava mal (fica com tantos gases que parecia que eu ia explodir). Primeiro voo internacional foi para EUA com a Reginia (Miami e Orlando) via Aerolineas Argentina quase quebrei a mão da Reginia da tanto que apertava de nervoso. Bem depois quando já estava trabalhando com os empresários de ônibus, num voo de Curitiba para o Rio à noite da Transbrasil, que tinha um monte de empresários de ônibus do Rio, inclusive o Jacob Barata (aquele avião se fosse sequestrado daria uma boa grana) e estávamos vindo de uma exposição do segmento de transporte de passageiros, o comandante era um grande amigo meu (ele tinha um trailer também lá em Teresópolis) e sabendo do meu pavor de voar, e passando pelo corredor ficou surpreso com a minha presença no voo, e quase que me obrigou a ir com ele para a cabine, e aí ele me demonstrou como era a condução do avião e então é que passei a ter menos medo, mas não totalmente. Detalhe deste voo é que ele tinha saído bem cedo do Rio e fez escalas Curitiba, Porto Alegre e foi para Buenos Aires e voltou no mesmo dia fazendo as mesmas escalas e ele me disse que estava extremamente cansado e por isso de Curitiba para o Rio ele veio “descendo o cacete” pois pegou ventos a favor. Caramba!! acho melhor parar por aqui por cheguei a conclusão que também fiz uma crônica!! hahahaha…. Um grande abraço e desculpe-me pelo texto!!!

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  5. A sua crônica me fez lembrar dois casos que aconteceram comigo. Para não ser enfadonho, vou descrever só o final do que aconteceu em um deles. Aidê e eu desembarcamos de escorrega. Sabe quando, em vez de abrirem a porta da escada, colocam um escorrega inflável? Foi assim! Mas achei interessante.
    Em outra oportunidade, eu estava num pequeno bimotor da FAB, com esposas de oficiais da aeronáutica que serviam comigo no NAeL Minas Gerais. Além dos dois pilotos, eu era o único homem. Ao todo, éramos 12 passageiros. Existia apenas um poltrona de cada lado e eu estava na segunda poltrona do lado direito. Em determinado momento, a senhora sentada à minha frente levantou-se e correu ao piloto, pouco mais de dois metros à frente, bem apavorada, avisando que a turbina estava pegando fogo. Sem obter mais do que um agradecimento, começou a bater na porta, localizada entre o piloto e a poltrona que ela ocupava, pedindo para abrir, pois ela queria sair. Após alguns segundo de desespero e gritos das demais passageiras para que se sentasse, a desesperada senhora não encontrou outra solução e aceitou sentar-se. O piloto tentou acalmar as pessoas, pedindo que mantivessem os cintos afivelados. Com alguma apreensão, todos se mantiveram sentados em um silêncio sepulcral. A turbina incendiada foi desligada e o avião continuou a viagem, que já estava no final, navegando normalmente com a turbina esquerda. Ao chegarmos ao destino, no Rio de Janeiro, um lado da pista estava ocupado por ambulâncias e o outro lado por carros de bombeiros. Sem maiores sobressaltos, todos desembarcamos. Final feliz, com uma estória peculiar para contar.
    Peço que me perdoe, Antonio Carlos, pela extensão do texto, mas senti vontade de lhe contar.
    Receba um forte abraço.

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    1. Amigo Roberto,
      Percebo que a crônica acionou sua memória de fatos semelhantes e assim pudemos conhecer um pouco suas histórias.
      Agradeço por compartilhar suas interessantes vivências. è muito bom conhecer novas histórias.
      Um grande abraço e uma ótima semana a você, Aidê e toda a família!

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  6. Olá Meu Amigo Sarmento, Muito boa noite, Que bom que você só não volta à Fortaleza, pensei que você diria; “Não viajo mais de avião!” Brincadeira à parte, devem ter sido duas ocasiões terríveis de se viver . . . Recomendações à Sônia e ao pessoal de além mar.

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    1. Meu amigo JH,
      Não dá para eliminar viagens de avião, mas se pudesse eu só usaria transporte terrestre: nem mar, nem ar…
      Estamos além mar, desfrutando da convivência e aproveitando o verão por aqui.
      Um grande abraço e uma ótima semana a você, Sueli, Catarina e os “meninos”.

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  7. Meu amigo, me deixe 15 horas num avião mas nem 2 horas nas rodovias!!! Tenho pavor de viajar de carro.
    Só pra registrar já passei por um incêndio a bordo do navio Eugênio Costa. Beijão em todos

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    1. Lucia,
      Minha amiga, me deixe 15 horas na estrada, mas nem 2 horas num avião… hahahaha
      Imagino a situação de um incêndio num navio. Não sabia que o Eugênio C tinha vocação para Titanic!
      Felizmente acabou bem.
      Beijos, minha amiga!

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  8. Feliz Dia dos Pais, meu amigo.
    Uma gripe inconveniente, depois de quase 5 anos sem visitar-me, instalou-se devagarinho.
    Estou, com paciência, mandando-a embora.
    A crônica retrata problemas bem frequentes, mas nunca passei por isso, apesar de viajar muito e várias vezes pela FAB. Fui esquecida, uma vez, quando vinha para o Rio, saindo de Brasília. Pararam para abastecer numa cidade paulista e todos deixaram o avião. Lia distraída e não percebi que estava num avião vazio. Atravessei a pista até o hangar sozinha…Imagine a cena quando me viram chegar…
    Linda, a crônica, traz à memória muitas lembranças.

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    1. Helena,
      Espero que esteja totalmente recuperada desta indesejável visita…
      Esqueceram de você pois estava absorta na leitura.
      Com certeza um bom livro, que ocupa toda a nossa atenção e traz o deleite da leitura. Quase uma outra viagem…
      Obrigado por compartilhar a história.
      Um grande abraço e uma ótima semana!

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