PERSEGUIÇÃO

Eu fui vítima de uma perseguição implacável. É uma experiência difícil e que deixa marcas. Depois que passou busquei em todas as fontes uma explicação sobre os fatos, mas não consegui esclarecer.

Felizmente durou algumas horas e passou. Não deixou sequelas, mas ficou a preocupação de que um dia possa reincidir.

Feito o preâmbulo, vamos aos fatos.

Saltei do carro para visitar uma feira medieval numa pequena cidade de Portugal. Mal pisei a calçada e uma mosca esvoaçou em torno de mim. Eu não via, mas sentia a sua presença. Abanei com a mão e ela afastou-se. Mas foi só para tomar distância. A dissimulada voltou com todo ímpeto e, covarde, me atacou por trás.

Farejou a minha nuca (parei a escrita neste ponto e fui confirmar se mosca tem olfato — tem!) e me fez cócegas, daquele tipo que não desperta riso, mas incômodo.

Dei um tapa com força na minha própria nuca. Chegou a estalar. Trouxe de volta a mão fechada, ansioso por ver ali o cadáver da lambisgoia. Eu desejava tê-la esmagado, mas claro que errei, pois os sensores de movimento da mosca são muito superiores aos dos banheiros de restaurantes.

Mal evadiu-se da nuca, a desenxabida procurou minha orelha esquerda, alfinetando e zumbindo, ameaçando entrar no ouvido. Desferi um auto peteleco, ou seja, outro tapa só que agora de trás para a frente, bem no abano da orelha. Ela novamente evitou o golpe. Neste momento, pensei ter ouvido um riso de mosca, mas pode ter sido apenas a minha imaginação…

Logo já me azucrinava a orelha direita. O curioso é que se deslocava sempre por trás da minha cabeça, tornando-se invisível. Irritado, mandei um piparote violento tangenciando a orelha por onde ela mosqueava, mas foi igualmente inútil.

Em segundos, ela acarinhava minha cabeça. Devia ser uma mosca branca, que entre os meus cabelos da mesma cor, buscava camuflar-se.

Sem pensar, dei um rasante no topete com a mão direita e emendei com um tapa de esquerda no topo da cabeça. Cheguei a ficar tonto. Os sopapos não surtiram efeito e a sirigaita continuava a torturar-me.

Parti para a ignorância, lançando golpes de boxe com as duas mãos: jabs, diretos, cruzados e ganchos. A descarada, muito esquiva, não se deixou pegar. Porém, diante do fogo concentrado na área da cabeça, recuou e retornou à minha nuca.

A esta altura eu já estava em desespero. Uma mosca deste tipo, apenas uma, é suficiente para acabar com a paz de um monge budista.

Resolvi voltar para o carro, na esperança de que a desalmada não conseguisse entrar junto. Assim teria algum tempo para me recuperar do ataque impiedoso e reunir forças.

A perversa veio até a porta do carro disparando a artilharia com intensidade. Ali eu me debati, abanei, assoprei, assoei, balancei a cabeça, abri a porta, pulei para dentro e fechei tão logo foi possível.

Já sentado, aguardei…

Não havia sinal da desgraçada.

Olhei pelo vidro e também não voejava por ali. Desfrutei de alguns momentos de calma, me recompus, arrumei os cabelos e aos poucos fui ganhando disposição para sair novamente. Havia uma feira para visitar e viajei até ali para isso. Aí vem uma mosca estraga-prazer e tenta frustrar meu passeio. Não vai conseguir. A covardia é para os fracos!

Parti novamente para o campo aberto. Meu carro estava próximo ao portão de entrada da feira e cheguei logo. Em poucos minutos eu já observava as barracas de comidas e de objetos medievais, ouvia músicas tocadas em instrumentos primitivos e notava grupos que passavam usando trajes típicos da época. Muitas coisas interessantes foram me distraindo e aos poucos fazendo esquecer a moléstia que havia me acometido.

Fiquei pensando se a minha perseguidora teria sido atraída pelo perfume que eu usava. Na dúvida, decidi que o descartaria assim que chegasse em casa, para não correr o risco de ter que passar novamente pelo suplício.

Comprei uma cerveja e saí passeando. Alguns goles depois visualizei um leitão que girava num rolete sobre brasas, sendo fatiado aos poucos para fornecer recheio de sanduíches, devorados vorazmente pelos visitantes. Era um McDonald’s medieval.

Entrei na fila para adquirir a iguaria. Foi quando percebi os sinais de um novo assédio. Preferi pensar que era apenas uma comichão na cabeça. Logo em seguida, desanimado, ouvi o canto da tirana, trazendo a certeza de seu regresso. Coceira não faz barulho e aquele zumbido era inconfundível.

Apliquei então uma técnica engenhosa. Larguei a cerveja no balcão ao lado, levei as duas mãos à cabeça e com os dedos abertos agitei nervosamente os cabelos. Ao mesmo tempo, as palmas das mãos tapavam os ouvidos e os polegares espanavam a nuca. Protegi todos os flancos. A mosca recuou…

Mas o remédio tinha efeitos colaterais. Sua aplicação chamava muita atenção. Visto à distância, meu proceder era incompreensível e sem querer eu estava virando atração da feira. Começou a juntar gente para ver aquele comportamento medieval.

Descabelado e envergonhado, achei melhor sair da fila e abrir mão do fast food do século X. Resolvi encerrar a visita para ficar livre do tormento. Sim, esgotado pelos ataques sofridos achei melhor voltar para casa, que neste caso, seria para mim uma verdadeira casa de repouso…

A mosca saiu comigo e apoquentou-me até a porta do carro. Como da outra vez, não ingressou no veículo, deixando-me a salvo de suas indesejáveis carícias e sussurros.

Tive praticamente a certeza de que era uma mosca medieval, ressuscitada sei lá como, e, portanto, avessa a modernidades como o automóvel. Se isto for verdade, chego à conclusão de que a vida na idade média não era nada fácil, mas o maior problema daquela época voava bem, cantava mal e tinha perninhas enervantes.

Antonio Carlos Sarmento

26 comentários em “PERSEGUIÇÃO

  1. Caro Antonio Carlos:
    Imagino o seu sofrimento imposto pela “esvoaçante” !!!
    Pior de tudo, foi que você não teve oportunidade de cumprir seu objetivo, que era de visitar a feira, tendo se contentado, apenas, em integrar uma estafante fila para comprar um sanduiche “medieval”, impedido q ue foi pelo indesejável adorno.
    Parabéns pelo seu artigo,
    Sds. do amigo.
    Carlos Vieira Reis

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  2. Bem que poderia ser considerado o quarto mosqueteiro se tivesse tido êxito no feito de eliminar a lambisgóia, rs.
    Normalmente associo esse tipo de moscas a cachórros de quintal e vou logo informando que sou exímio matador de moscas, chego a ser obsessivo quando na cozinha ou em churrascos, munido de uma pequena raquete que normalmente tenho em duplicidade…
    Parabéns por mais essa crônica e uma ótima semana.

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    1. Caro primo Rômulo,
      Não sabia desta sua exímia capacidade, senão teria te pedido ajuda… hahaha
      Muito boa a sacada do quarto mosque(i)teiro. Quem sabe numa revisão, se você me autorizar, incluo na crônica.
      Muito obrigado por comentar.
      Uma ótima semana a todos vocês!
      Abraços

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  3. …lambisgoia, piparote, peteleco, sirigaita … as palavras muito bem aplicadas geraram uma perfeita ação que nos transportaram para a cena da época … esta feira era na cidade de Óbidos?
    Nos sentimos caminhando lá … adoramos…forte abraço

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    1. Caro Armando,
      Interessante notar as palavras que te chamaram a atenção… são realmente engraçadas e foi isso que me fez usá-las.
      O evento referido na crônica foi em Santa Maria da Feira, no norte de Portugal, meu amigo.
      Obrigado por comentar e desejo a você e Valéria uma ótima semana!

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  4. Caro Antônio, este seu perfume, nunca me enganou. Precisou de uma mosca para você trocar este perfume. Na próxima vez, vou ser sincero e lhe avisar.

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    1. Guto,
      Eu já tinha percebido que você não gostava do meu perfume e usava só para implicar contigo. Joguei fora o que estava em Portugal, mas tenho um novinho em casa para quando nos encontrarmos… hahahaha
      Grande abraço!

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  5. Imagino o tormento de ter que se livrar da mosca, um dos insetos mais repugnantes. Difícil tarefa é afastar-se dela, em lugares onde os odores ou o lixo a fascinam.
    Como sempre, uma crônica interessante e criativa, mas prefiro quando percorre os caminhos da beleza, o que você faz muito bem.
    Um abraço grande e um carinho na Sônia.
    Já espero ansiosa o próximo domingo.

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    1. Cara Helena,
      Interessante você comentar que prefere o percurso dos caminhos da beleza. Pois bem, a crônica do próximo domingo já está pronta e você adivinhou o percurso. Espero que aprecie!
      Obrigado por seu comentário.
      Desejo uma ótima semana!
      Beijos

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  6. Caro Amigo Sarmento, Muito boa noite, Mais uma divertidíssima e sensacional crônica sua . . . Só você para me trazer a recordação de tantos termos que há muito eu não ouvia, lia ou falava: lambisgóia, desenxabida, peteleco, azucrinava, piparote e mosqueava, aliás esse último eu nunca tinha ouvido, lido ou falado . . . Parabéns, meu Amigo, pela sua mente brilhante . . . Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Guilherme, ao Jean e demais familiares.

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    1. Meu caro amigo e eminente comentarista JH,
      Você sempre percebe coisas sutis nos meus textos e agora já fico curioso e tentando adivinhar o que vai comentar…hahahaha
      Muito obrigado por participar tão intensamente do meu trabalho. Não imagina como é importante este retorno para quem escreve.
      Um grande abraço, meu amigo e uma semana muito feliz para você, Sueli, os meninos e, claro, a Catarina!

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  7. Kkkkkkk. Minha avó, se viva fosse, te diria que esse assedio era porque havia alguem querendo falar contigo…. Coisa dos mais antigos. Lugar onde hoje, estou ocupando… kkkkkk divertido. Boa semana e fiquem com Deus.

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    1. Caro Luigi,
      Que bom ter se divertido. Eu também desfrutei de momentos de bom humor ao escrever.
      Acho que tinham uns 10 querendo falar comigo: foram os que aqui comentaram… hahaha
      Um grande abraço e uma ótima semana a você e todos os seus!

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    2. Ai que raiva dessa mosca maldita! Atrapalhando o turismo do meu irmão ,eximio escritor!
      Tão bem descrito que imaginei ela grande e cascuda.Pior que isso só uma barata voadora! Afe…..

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  8. Bem divertido para quem está de fora a ler, mas muito irritante quando somos actores de cenas parecidas. Essa mosca era realmente danada e insistente!
    (espero que as moscas portuguesas não sejam piores que as demais…)

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    1. Dulce,
      As moscas brasileiras são tão ruins quanto as portuguesas… hahahaha
      Devia ser mesmo uma mosca de descendência medieval e aí o problema não era a nacionalidade, mas a antiguidade.
      Fico contente que tenha se divertido.
      Desejo uma ótima semana!

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  9. Meu jovem amigo, manifesto meus agradecimentos e obrigado pela atenção no envio da crônica .
    Um beijo no coração ❤️ da família.
    Osluzio.

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